A importância da comunicação no combate

O Brasil passa por um período de recuperação no número de cidadãos armados e, por consequência, temos acesso a uma infinidade de materiais de treinamento feitos por profissionais, por instruendos ou por curiosos autodidatas.

Apesar do efeito positivo na popularização do uso das armas, o senso comum relacionado ao tiro encontra terreno fértil na internet. Alunos e professores repetem movimentos que parecem interessantes, super táticos, com óculos escuros, velcro, barbas, tatuagens e caras de mau, na maior parte das vezes sem entender nada do que estão fazendo. ou por que estão fazendo.

Um dos erros mais comuns no treinamento é a falha na comunicação.  A comunicação é o elo que transforma um amontoado de pessoas em uma equipe. A comunicação pode ser a diferença entre a sua ação ser legalmente justificada ou excessiva. Uma palavra dita na hora correta pode salvar sua vida com tanta propriedade quanto um disparo bem efetuado.

Comunicar-se significa transmitir informação, o que pode ser feito de maneira verbal ou não verbal.

Para uma equipe bem treinada – que pode ser um grupo militar ou a sua família – rotinas pré-estabelecidas poupam esforços auditivos e de raciocínio, além de fornecerem algo encriptado para o inimigo. Não é nada inteligente gritar “pane”, “recarga”, “não sei onde ele está” ou “acabou a munição”, não é?

A comunicação não-verbal pode ser executada por gestos com as mãos – mais comum -, com a posição corporal, sinais luminosos, cadência de disparos e tudo mais que a criatividade permitir.

Tão importante quanto transformar esse aglomerado de pessoas em uma equipe por meio da comunicação, é oferecer as palavras certas para o inimigo e para suas vítimas reais ou potenciais. Essas pessoas vão ser chamadas a testemunhar, não se esqueça.

Quando o cenário é extremo, não se pode contar com o improviso.  Se você tomar uma decisão nessas circunstâncias, a probabilidade de que ela não seja a melhor possível é enorme.

Quantas vezes você treinou como vai se comunicar com a testemunha que acabou de assistir você alvejar um assaltante?

Nullius in verba

 

 

 

Curso x treinamento – entenda a diferença

A busca pelo aprimoramento técnico no ramo do tiro e/ou combate pode ser trilhada por vários caminhos diferentes.

Observo muita gente, na justa tentativa de melhor alocar seus recursos, especialmente financeiros, fazer escolhas contraproducentes,  o que, no fim das contas, exige muito mais tempo e dinheiro que a opção inicialmente mais cara.

Para contextualizarmos isso tudo, precisamos ter uma boa noção de conceitos erroneamente misturados: cursos e treinamentos.

Cursos de tiro são eventos que têm como função precípua a apresentação ou aprimoramento de determinada técnica ou conjunto delas,  num cenário controlado e básico, não aplicado. Diferente de um estágio, por exemplo. Assunto para outro texto.

Treinamentos são sessões de repetições de técnicas ou conjunto delas que têm como objetivo internalizar determinado padrão de movimento, comportamento ou conhecimento, com o objetivo de torná-lo naturalmente executável quando o fato concreto demandar.

Boa parte das pessoas, talvez a maioria, tenta substituir os cursos com treinamento e algumas delas, tendem a acreditar que os cursos possam substituir os treinos. Dois erros.

Esses eventos são mutuamente complementares e raramente mutuamente excludentes. Ou seja: a função de um bom instrutor, em um curso específico, é orientar os seus atos a fim de torná-los mais eficazes, mais inteligentes, o que jamais vai acontecer caso a nova rotina não seja treinada.

Além disso, no uso de arma de fogo, a boa instrução compreende um fator extra: aprimoramento em práticas seguras, normalmente negligenciadas pelos autodidatas e, cujo aprendizado pode acontecer a custo muito alto. É claro, isso pode ser substituído pelo treinamento bem assistido e/ou monitorado.

  1. Quando se faz um curso e não se treina o novo conhecimento, a tendência é o esquecimento.
  2. Quando se treina sem a instrução adequada, a tendência é a massificação de padrões errados ou, na melhor das hipóteses, é gastar muito tempo e dinheiro para descobrir algo que lhe seria dito de imediato pelo instrutor.
  3. Quando não se treina e não se aprimora por cursos, você cai na mediocridade.
  4. Quando se consegue aliar bons cursos a sessões orientadas de treinamento, a evolução é constante.

Faça cada segundo de sua prática valer a pena.

Nullius in verba!

Como se defender de um ataque com faca

Escrito por Lucas Silveira.

No último final de semana o presidenciável e mais provável futuro Presidente do Brasil foi vítima de um atentado terrorista.

Armado com uma faca pelos seus comparsas, o militante de esquerda desferiu uma estocada contra o abdome do candidato, que foi rapidamente levado para o atendimento médico.

Nesse caso concreto havia uma multidão, e o ataque inopinado apenas poderia ter sido evitado pela prevenção, responsabilidade precípua da equipe de segurança que, quero acreditar, foi ignorada pela vítima, que assumiu o risco em prol da campanha.

Para fins pedagógicos, vamos simplificar o cenário e entender as melhores formas de sobreviver a um ataque com facas.

Esta instrução é parte do conteúdo do Curso de Combate com Facas Nível I da Academia Brasileira de Armas, baseado no Kali Silat e no Kombato. Para os efeitos deste texto, nosso cenário é composto por um agressor determinado a matar, e uma vítima.

  1. Controle a distância – Mantenha a distância o máximo que puder. A faca é uma arma poderosa, mas apenas funciona a curtíssima distância. Por óbvio, se o agressor estiver de um  lado da rua, e a vítima estiver do outro lado da rua, é impossível que ele tenha êxito em seu delito.  Quem controla a distância, controla o combate.
  2. Utilize a balística a seu favor – Caso exista a obrigação legal ou moral de enfrentar o agressor, o padrão ouro contra ataque com facas é, a partir de uma distância segura, disparar contra o agressor até a sua incapacitação, quantas vezes forem necessárias.  Na falta de uma arma de fogo, atire objetos contra o agressor: pedras, móveis, objetos de decoração, eletrônicos.
  3. Procure algo mais comprido que a faca para lutar – Com exceção da arma de fogo, o melhor objeto contra uma faca é um bastão. Havendo a possibilidade da adequada movimentação e, por consequência, mais uma vez, o controle de distância, é impossível para o detentor da faca lograr êxito.
  4. Em último caso, saque a sua faca – combate com facas não é Hollywood. Quando uma lâmina é sacada, alguém irá se ferir gravemente ou, provavelmente, morrer, e pode ser você. Lutar em igualdade tática é burrice. Se você se encontra em uma luta justa, você não se esforçou o suficiente. Esteja certo de utilizar as melhores técnicas e estratégias nesta fase.
  5. Nunca lute desarmado contra uma faca – Se lutar em igualdade de condições é burrice, eu não sei como chamar alguém que, tendo a opção de recuar e reagrupar esforços para combater com vantagem, escolhe fazê-lo em inferioridade. Caso, contudo, você se veja em um cenário em que lutar desarmado contra uma faca seja inevitável, a melhor estratégia é manter-se afastado o maior tempo possível, procurando por armas próprias, armas impróprias e saídas para fuga. O único combate injusto é aquele que você perde.

Não se aprende nada disso lendo um texto, portanto, se você pretende aprender como sobreviver a um cenário caótico como este, procure uma escola especializada. Além, obviamente, da Academia Brasileira de Armas, recomendamos os instrutores graduados pela Kali Silat Brasil e pela Kombato.

Os 10 mandamentos do combate armado (e mais!)

Escrito por Lucas Silveira.

Em 2013 escrevi os 10 mandamentos do combate armado. Foram 10 importantes conceitos que viralizaram na internet e foram replicados incontáveis vezes.

Faço questão de republicar o artigo original também aqui na Academia Brasileira de Armas, 5 anos depois. Confira:

Não existe jeito fácil. Não existe treinamento que baste. Não existe arma suficientemente boa. O combate armado é sempre extremamente difícil, especialmente diante da letalidade das armas modernas e da imprevisibilidade da reação do seu inimigo. Todavia, algumas regras básicas, quando observadas, permitem ter vantagem em momentos de extrema tensão. Denominamo-os os 10 mandamentos do combate armado. Conheça e pratique cada um deles.

pistol combat

  1. Faça o que for preciso para sobreviver. Não existe nenhuma lei em vigor durante uma troca de tiros.
  2. Trapaceie. Iluda, engane, jogue sujo. O único combate desonroso é aquele em que você perde.
  3. Movimente-se. Nada é mais fácil de acertar que um alvo parado.
  4. Reduza a silhueta. Alvos pequenos são mais difíceis de serem acertados. Seja pequeno.
  5. Atire primeiro. Surpreenda.
  6. Atire melhor. Seja preciso.
  7. Atire mais vezes. Pulverize.
  8. Tudo o que vale a pena ser acertado, vale a pena ser acertado duas vezes. 
  9. Proteja-se. Use os abrigos naturais ou artificiais.
  10. Controle a distância. Quem controla a distância, controla o combate.

 


Em 2015, eu fiz um pequeno complemento a estes conceitos, no texto intitulado “5 dias para sobreviver à violência urbana”.  Replico o texto na íntegra:

Há algum tempo escrevi os 10 mandamentos do combate armado, que se tornou um “viral” contido até mesmo em apostilas de polícias estaduais pelo Brasil.

Nosso objetivo hoje é retroceder um pouco no tempo deste combate hipotético. Que medidas podem ser tomadas para aumentar as chances de sucesso frente à crescente violência urbana?

Vamos enumerar 5 pontos vitais que jamais devem ser subestimados, tanto pelo operador militar ou policial, quanto pelo pai de família que foi ao mercado fazer compras. Confiram.

 

1. Esteja sempre armado.

2. Trate a todos como se estivessem armados. Toda pessoa que tem uma arma, pode ter duas.

3. Nenhuma ameaça é individual. Nunca assuma que seu inimigo está sozinho.

4. Ataque primeiro. Ataque melhor. Ataque com mais força.

5. Se é impossível combater a agressão com superioridade, recue.

 

Vamos analisar cada um deles?

 

1. Esteja sempre armado.

Não basta estar armado, ou estar treinado. É preciso estar SEMPRE armado e SEMPRE com o treinamento em dia. Seu pior conflito ocorrerá no exato momento em que você baixar a guarda e pensar “mas eu vou só até a padaria comprar um sorvete…”.

2. Trate a todos como se estivessem armados. Toda pessoa que tem uma arma, pode ter duas.

Desde os tempos de Sun Tzu, subestimar o inimigo é um erro fatal. Assuma que sua ameaça está bem armada. Trate-a desta forma sempre, mesmo que você tenha razões para acreditar que não seja verdade.

Além disso, o fato de um agressor ter perdido ou entregado uma arma, não significa que ele não possa ter outra.

3. Nenhuma ameaça é individual. Nunca assuma que seu inimigo está sozinho.

A negligência deste ponto é decorrência da chamada visão de túnel ou da exclusão de auditório. Reações fisiológicas  fazem com que uma pessoa sob estresse reduza a sua capacidade de ver ou escutar qualquer coisa além da ameaça imediata.

Esta é a razão de se treinar o “scanning” (olhar para os lados) no tiro tático e nos treinamentos de combate desarmado de qualidade, de se evitar a todo custo andar para trás e de se combater um agressor no chão ou em luta agarrada.

Sempre levante-se, olhe para os lados, busque novas ameaças, antes do combate, durante o combate e depois dele, se houver.

4. Ataque primeiro. Ataque melhor. Ataque com mais força.

Confusões quanto a interpretação da legislação sobre legítima defesa ou até mesmo sobre um conceito errado de ética ou moral podem fazer o neófito acreditar que precisa ser efetivamente agredido para poder responder com a força necessária.

Não é verdade. Se o confronto físico é iminente, sua obrigação tática é agir primeiro, inopinadamente e com a violência necessária para impedir o ataque oriundo do inimigo. Surpresa, velocidade e violência da ação. Diligentia, vis, celeritas. Já ouviu isso antes?

5. Se é impossível combater a agressão com superioridade, recue.

Situações de estresse geram no corpo humano a chamada reação de luta, fuga ou congelamento. Tratamos com frequência da luta, mas é importante não subestimar o valor da fuga.

Fugir não é desonroso. Não significa desistir do combate, mas apenas reagrupar esforços para repelir uma agressão de modo inteligente. Apenas aceite um combate se a vitória for significativamente mais provável que a derrota.

O único combate injusto é aquele em que você perde.

 

Referências:

https://www.defesa.org/os-10-mandamentos-do-combate-armado/ – Acesso em 03 de setembro de 2018, 10:30

https://www.defesa.org/5-dicas-para-sobreviver-a-violencia-urbana/ – Acesso em 03 de setembro de 2018, 10:30

A utilização de armas e lanternas

Escrito por Lucas Silveira

Não é preciso um grande poder de observação para perceber que o fato de se ter uma pistola e acertar o “x” a 10 metros, estando parado, com o alvo parado e “em pé”, num ambiente iluminado, sem pressa e com a possibilidade de utilizar cautelosamente todos os fundamentos do tiro está muito distante da sua provável utilização dessa arma para defesa.

É evidente que a prática dos fundamentos do tiro, seja para o esporte ou com o objetivo de aprimorar determinadas técnicas não deve ser negligenciado. Este texto, contudo, tem o objetivo de dar um passo além desta linha e apresentar um ponto igualmente relevante para aqueles que pretendem se defender com armas de fogo.

O assunto é baixa luminosidade. Já parou para pensar que é razoavelmente provável que se você tiver que atirar em alguém, isso pode acontecer durante a noite ou na penumbra? Você já analisou as consequências desta realidade distante da “prática padrão” do tiro?

Sem a pretensão de fazer deste material um compêndio de ótica e fisiologia, é preciso saber o básico sobre a visão humana para fazer o melhor uso desta ferramenta – seus olhos – especialmente numa prática tão complexa como o tiro tático ou defensivo. 

Vejamos:

O olho dos vertebrados é semelhante a uma câmara fotográfica, porém bem mais complexo. O olho possui um mecanismo de busca e de focalização automática do objeto de interesse, um sistema de lentes que refratam a luz (uma fixa e outra regulável), pupila de diâmetro regulável, filme de revelação rápida das imagens e um sistema de proteção e de manutenção da transparecia do aparelho ocular. As células sensíveis à luz estão na retina e através de um processo fotoquímico, os fotorreceptores transformam (“transduzem”) fótons em mudanças do potencial de membrana (potencial receptor). Antes dos sinais visuais se tornarem conscientes no cérebro, estes são pré-processadas na retina por uma camada de células nervosas. As informações aferentes chegam ao encéfalo através do nervo óptico (II par de nervos cranianos) e já foram previamente triadas sobre determinadas características da cenavisual.

O olho além de possibilitar a análise do ambiente à distância, permite discriminar os objetos quanto a suas formas, se estão perto ou longe, se estão em movimento e dependendo da espécie, se são coloridos. Além da construção visual sobre o ambiente onde se encontram, as imagens são utilizadas como elementos de comunicação.¹

Em outas palavras, os olhos são órgãos destinados a traduzir luz em informações sobre o ambiente, de onde se conclui que isso pode ser fortemente afetado pela baixa luminosidade.

Existem aproximadamente 7 milhões de CONES em cada olho humano concentrados na região fóvea. São responsáveis pela visão Fotópica sensível aos estímulos de luz e cores. A ausência ou deficiência nos cones dá origem ao daltonismo. Os BASTONETES são células fotoreceptoras (sensíveis à luz), da retina e conseguem funcionar com níveis de luminosidade baixos. São basicamente responsáveis pela visão noturna. Têm este nome derivado de sua forma alongada e cilíndrica. São também usados na visão periférica. Estas células estão concentradas na parte mais externa da retina e existem cerca de 100 milhões de bastonetes. Proporcionam a visão Escotópica, quando existe menos luz, e acentuam a percepção de contrastes, saturação e matizes do preto, branco e cinzas, mas não das cores em si.

(….)

Responsáveis pela sensação de cores enviadas ao cérebro os Cones, realizam a visão Fotópica e funcionam melhor com bastante luz, na função de captar as ondas de cor do espectro solar e realizam a síntese aditiva da luz branca nas horas de sol alto. Ao longo do crepúsculo nossa visão passa lentamente a operar com a visão Escotópicacaracterística dos Bastonetes. Durante o pôr-do-sol e o nascer do dia temos as quatro células fotosensíveis operando simultaneamente, pois os bastonetes estão ativados pela baixa luminosidade, mas a luminosidade solar ainda mantem os cones captando ondas coloridas do vermelho ao violeta. Devido à angulação do sol em relação aos nossos pontos de observação enxergamos num contínuo cada comprimento de onda colorida do espectro, e lentamente nos adaptamos à baixa luminosidade da noite.²

Os olhos se adaptam a situações de baixa luminosidade, em contrapartida perde-se algumas importantes habilidades, por exemplo:

  • Senso cromático (já ouviu falar que à noite todos os gatos são pardos?)
  • Redução da profundidade de campo
  • Dificuldade com a noção de profundidade

É evidente, portanto, que, em regra, os humanos se sintam desconfortáveis ao realizar tarefas em locais escuros. Frente a uma ameaça potencial ou real, a primeira reação pode ser a de querer acender logo a lanterna, ou clicar no interruptor de luz., mas o estudo do combate em condições de baixa luminosidade desenvolveu uma série de técnicas que podem transformar a falta de luz e uma vantagem, mesmo para aqueles pegos desprevenidos.

Disciplina de luz é como chamamos o uso racional das fontes de luz, próprias, naturais ou de inimigos, em combate.

A primeira coisa que o instruendo pensa ao se falar em “disciplina de luz” é simplesmente evitar acender a lanterna.  É claro que o conceito vai muito além disso, desde a forma inteligente de se vestir e usar os seus eletrônicos, planejar a edificação a ser protegida – sua casa, empresa, terreno – usar a penumbra (transição da luz para a sombra) para obter vantagem tática para movimentação ou emboscada, até o treinamento para reagir contra fontes de luz utilizadas pelo inimigo.

Em todo esse contexto, a utilização das lanternas pelo atirador é uma agulha no palheiro, o primeiro passo de uma grande caminhada sem o qual todo o restante dela não acontece.

Existem, grosso modo, duas formas de se utilizar lanternas e pistolas simultaneamente: lanternas acopladas à arma, que permitem a utilização normal da pistola, ou separadamente dela, que exige mais treinamento de manuseio adequado para compensar as duas tarefas complexas (disparar e utilizar a luz) sendo executada simultaneamente. É claro, é possível fazer uso das duas opções de forma mesclada.

As empunhaduras FBI e suas variações, indexadas anatomicamente, Harries e Surefire são as mais utilizadas por aqueles que preferem separar as lanternas das pistolas. Quais as vantagens e desvantagens de cada uma delas?

Vamos falar sobre isso nos nossos próximos textos para o site da Academia Brasileira de Armas.  Cadastre-se aqui para receber novidades de cursos e textos.

  1. http://www.ibb.unesp.br/Home/Departamentos/Fisiologia/Neuro/08.sentido_visao.pdf acesso em 29/08/2018 – 11h
  2. http://luztecnologiaearte.weebly.com/luz-e-fisiologia-da-visatildeo.html acesso em 29/08/2018 – 11h

Nullius in verba – Nas palavras de ninguém

Escrito por Lucas Silveira

Fundada em 28 de novembro de 1660, a Royal Society of London for Improving Natural Knowledge é uma instituição que tem como objetivo a produção de conhecimento científico.  Foram membros da sociedade personagens que  mudaram o rumo da História, como Robert Boyle, reconhecido como primeiro químico moderno, Henry Ford, Isaac Newton, Charles Darwin e Albert Einstein, entre centenas de outros nomes.

A mais notória entidade científica da História trouxe consigo o lema Nullius in verba, latim para “nas palavras de ninguém”.

Trata-se de um desafio a autoridade. Não no sentido pejorativo da expressão, em busca da bagunça,  como uma criança cheio de “porquês”, mas sim como uma forma cética e incessante de trilhar o caminho para a verdade.

Quando se diz “nas palavras de ninguém”, procura-se deixar claro que o simples fato de alguém afirmar alguma coisa, não importa quão respeitado seja o autor, isso não é suficiente para transformar aquilo em verdade, muito menos em verdade científica. Este fato deve ser testado, comprovado, replicado, reproduzido, repetido, até que não se sobre mais dúvidas da sua veracidade ou, quem sabe, que se comprove a sua falsidade.

Nas ciências clássicas, a metodologia científica já é razoavelmente bem empregada, servindo como fundamento para mudanças de paradigmas, para a evolução do estado da arte. Foi isso que nos permitiu evoluir tecnologicamente desde a idade média até o pouso em marte, vacinas, informática, meios de comunicação.

Einsten fez afirmações na primeira metade do século XX que ainda são testadas antes de se assumi-las como fato, mesmo tendo sido proferidas pelo pai da física quântica, da Teoria da Relatividade e da E=mc².

E para o tiro? E para a prática da defesa? E para as ações táticas? Será que as técnicas que chegam aos usuários finais foram testadas? Ou será que elas apenas são repetidas por serem oriundas de uma “autoridade” respeitada no meio?

Há algum tempo gravei um vídeo para o canal do Instituto DEFESA no YouTUBE falando sobre a forma  mais inteligente de se utilizar uma Kerambit – aquele modelo de faca que virou moda de uns tempos pra cá. Recebi dezenas de críticas cuja maior argumentação era: “Mas o fulano faz assim….”

Ora, é este tipo de comportamento que “Nullius in verba” se propõe a combater.  A técnica que eu apresento no vídeo pode ser testada a qualquer momento, por qualquer pessoa, e vai ter resultado superior à técnica do “fulano”, em igualdade de condições.  Não importa o que eu disse ou o que o fulano disse. O que importa é o que pode ser mensurado, repetido, comprovado, ainda que você goste do Lucas Silveira ou do fulano do outro vídeo.

Trouxemos à Academia Brasileira de Armas este mesmo meio de pensar. Seria muito fácil replicarmos as exatas técnicas de um ou de outro expoente da área nas nossas instruções. Todos aqueles “antenados” em Instagrams e YouTubes rapidamente assumiriam o trabalho da ABA como “correto”, já que estaria alinhado com o que se assume como verdade.

Contudo, isso não basta. Preferimos ouvir várias fontes e, principalmente, testar e comparar todas as técnicas que são apresentadas. Muitos destes estudos serão publicados aqui no nosso site, com o objetivo de convidar toda a comunidade a fazer o mesmo: duvidar, testar, comprovar, inovar.

Se você não quer cair no senso comum e ser apenas mais um dentre tantos outros, desafie a autoridade. Não acredite em ninguém, nem mesmo neste que escreve.

Nullius in verba.

 

Como está cenário geral da segurança do brasileiro no motociclismo?

Escrito por Eduardo Azeredo

Motor Harley Davidson Milwaukee-Eight 114

Quando falo sobre segurança em duas rodas, é no sentido mais amplo da palavra, abordando desde a segurança da pilotagem e trânsito em si, até a violência urbana, com os alarmantes volumes de ocorrências de acidentes e roubos, alguns, infelizmente, levando vários cidadãos de bem à morte. Vamos então falar um pouco mais sobre isso e suas soluções.

Você sabia que a grande maioria dos acidentes de moto são gerados por imperícia, imprudência ou pelos dois juntos? Há alguns anos fiz uma estatística, rodando hospitais e fazendo muitas dezenas de entrevistas com acidentados, cheguei a um número onde 95% dos acidentes relatados eram evitáveis, sendo a grande maioria destes foi gerado pelo próprio motociclista
acidentado. Justamente pelos fatores que falei há pouco.

Curso de Pilotagem

Posso afirmar que o aprendizado do dia a dia não é o suficiente. Muito pelo contrário. Apenas com a rodagem instintiva e intuitiva natural, assimilamos muitos “vícios” e práticas completamente equivocadas. E o mais assustador é que muito desse “aprendizado” é obtido nas motoescolas. O ensinamento do uso exclusivo do freio traseiro, por exemplo, é quase uma unanimidade nas
motoescolas, e é um dos erros que mais derrubam motociclistas nas ruas. Sim, está errado! A frenagem correta é a chamada “combinada”, usando dianteiro e traseiro simultaneamente, com maior intensidade no dianteiro.

Curso Defesa Armada para Motociclistas

Pilotar com técnica gera segurança e confiança ao motociclista, em todas as suas perspectivas. Se as pessoas tivessem uma preparação técnica efetiva, que no Brasil só é possível fazendo um bom curso, certamente muitas vidas seriam preservadas. Talvez justamente pelo fato de ser instrutor de pilotagem e, por conta disso, acabar pilotando sempre com atenção redobrada e fazendo uso das técnicas mais adequadas de pilotagem, estou há muitos anos sem nenhuma ocorrência de acidente.

Um verdadeiro desafio que tenho tido em todos os anos que venho dando instrução é justamente com alunos que já pilotam há mais tempo. Esses mais “veteranos” tem a sensação de que, como já pilotam há anos, já sabem tudo, já aprenderam rodando, e que não tem mais o que aprender.

Ao final dos cursos, é impressionante como os que se sentem mais recompensados, os que dão os feedbacks mais emocionados, são justamente esses com 5, 10, até mais de 40 anos de motociclismo. O relato é quase padrão, com algo como “Achei que sabia pilotar pra caramba, mas
hoje descobri que não sabia nada!”. É muito gratificante e recompensador ter esse tipo de retorno.

É certeza de estar tirando alguém dessas estatísticas negativas do motociclismo. Agora trazendo um pouco para a questão da violência pública, falando diretamente dos roubos de motos, aí está outra coisa que tem tirado muita gente do motociclismo. Seja por interrupção violenta da vida ou seja pelo abandono do mundo das motos, por pessoas que, justamente para
não sofrerem com assaltos, preferem abrir mão do seu estilo de vida em duas rodas.

Sou parte presente em várias das estatísticas que envolvem violência a motociclistas, especialmente nos últimos 8 anos, atuando como piloto de testes para o Duas Rodas News e outros veículos de comunicação, quando tive um total de 13 tentativas de roubo das motos que eu estava pilotando – a maioria de teste -, sendo 6 em São Paulo, 6 no Rio de Janeiro e 1 na Bahia.
Felizmente consegui ficar de fora das estatísticas graves.

Justamente pensando nisso, no bem estar dos motociclistas, no direito de se proteger, de se defender, de curtir a sua moto e seu passeio, acabei idealizando o hoje chamado curso de Defesa Armada para Motociclistas. Um curso que visa unir todas as ferramentas possíveis para que os motociclistas tenham toda a bagagem necessária para se resguardar desses dois vilões, os
acidentes e os assaltos, contando com aulas de pilotagem, onde o aluno aprende todas as técnicas indispensáveis para dominar efetivamente a sua moto, em todas as circunstâncias, e aulas de defesa, passando todos os conceitos e práticas de que ele precisa tomar conhecimento para otimizar seu potencial de defesa, com e sem o uso da arma de fogo, unindo o máximo de
desempenho em ambas as atividades, aumentando em grandes proporções a sua chance de sucesso e preservação da vida.

Para concluir, podemos notar que todos estamos sujeitos às adversidades que o dia a dia nos impõe, especialmente no Brasil e em uma moto, então já que o ambiente é hostil, que estejamos sempre preparados e prontos para sairmos vitoriosos, nos dando o direito de resguardar nossa vida, liberdade e propriedade.

O que é Center Axis Relock

Paul Castle

” O Center Axis Relock (CAR) foi desenvolvido por um longo período, a partir da compreensão básica de como corpo e mente funcionam. Ele foi desenvolvido primeiramente para o CQB e permite ao operador um alto nível de retenção de armamento em comparação com as demais técnicas. O sistema é igualmente funcional para a utilização de OC ou de armas longas. Isso é alcançado construindo um posicionamento harmonioso da musculatura do operador e permitindo transicionar de uma forma de arma para outra sem alterar a base ou a postura.” (Paul Castle)

O Center Axis Relock foi idealizado por Paul Castle, nascido em Ramsgate, na Inglaterra, em 14 de Janeiro de 1959. Ele entrou na polícia de Kent com 18 anos e, ao se aposentar, mudou-se para os Estados Unidos, fundando a Sabre Tactical.

Trata-se de um sistema completo de utilização de armas de fogo que, para o bem ou para o mal, ficou mais conhecido após sua aparição – tecnicamente incorreta vale dizer – em filmes como John Wick e Punisher.

Frank Castle (Punisher) encerando a Combat Position

Embora o cinema tenha se limitado a colocar as armas a 45°, o CAR System é muito mais completo. O sistema compreende 3 posições de tiro e suas variações.  A partir delas é possível atirar desde 0 até 20 ou 30 metros com armas curtas, assegurando um perfil reduzido e alta estabilidade (controle de recuo) do armamento.

Em todas as posições é possível disparar com ambas as mãos.  Utilizando o sistema, o atirador consegue dominar o raio de 360° sem precisar se movimentar. Ou seja, é possível atirar desde as 12h até as 6h,  com ambas as mãos.

John Wick encenando o uso do sistema CAR

Além disso, o sistema previne as consequências deletérias do Dual Sight Picture ou, pior, do atirador que fecha um dos olhos para disparar.

O CAR System envolve também táticas para entradas em CQB, abordagem de veículos ou reação a partir deles.

Após o falecimento do Paul Castle, em 2011, a Sabre Tactical continuou a ser administrada pelos seus alunos mais próximos, dentre os quais se destaca Jeff Johnsgaard, instrutor da Academia Brasileira de Armas.

Nos últimos 7 anos a técnica evoluiu muito, com a cooperação dos sucessores do Paul Castle junto à Sabre.

Jeff Johnsgaard, maior autoridade do mundo sobre CAR System

A Academia Brasileira de Armas oferece cursos de introdução e avançados de Center Axis Relock, autorizados pela Sabre Tactical. Conheça.

 

 

Quantos disparos deve ter um curso de tiro?

Escrito por Lucas Silveira.

Em um país onde o acesso a munição é escasso,  seja pelo alto preço decorrente da tributação confiscatória ou pela legislação draconiana que apenas assegura direitos aos criminosos, os cidadãos valorizam muito o quantitativo de disparos em uma instrução de tiro.

Será, contudo, que existe uma relação direta entre quantidade de disparos e curva de aprendizado? É possível que existam temas onde a quantidade de disparos necessária seja maior e outros temas onde o número de tiros possa (ou deva) ser menor?

O primeiro ponto é compreender a diferença entre cursos de tiro – strictu sensu – e cursos táticos ou especializados.

Imagine, por exemplo, que o seu objetivo seja treinar “controle de recuo”. Costumamos fazer isso por meio de sessões sucessivas de “Bill Drill” (6 disparos por vez).  Qualquer pessoa, mesmo com muito pouco treinamento, consegue fazer 6 disparos em 5 segundos. De onde se pode estimar uma taxa de consumo de munição de 72 tiros por minuto ou 4.320 disparos por hora. Ok, é claro que existem pausas entre as séries de 6 disparos, mais o tempo de municiar os carregadores e, eventualmente de conferir os alvos. Vamos considerar então 50% deste tempo? Ou quem sabe, 10% do total? 432 disparos por hora de treino de controle de recuo.

Vamos pensar agora no lado oposto. Cursos táticos ou especializados. Para ilustrar, vamos usar nosso curso de DEFESA ARMADA PARA MOTOCICLISTAS. O primeiro dia do curso é composto exclusivamente pela instrução de pilotagem. Nenhum disparo. O segundo dia começa com teoria, técnicas específicas de saque, movimentação e tiro em si para motociclistas sobre e ao redor da moto. Para cada exercício o atirador pode fazer 1, 2 ou, se quiser esbanjar, até 10 disparos, mas provavelmente isso não vai acrescentar muito à curva de aprendizado. Em um curso destes para que se gaste 100 a 200 disparos, em dois dias (16 horas/aula), é muito difícil.

O que se pode concluir disso?

Em cursos de tiro propriamente dito existe uma necessidade maior de consumo de munição. Não tem jeito. Se você quer aprender a nadar, precisa gastar tempo dentro da água. Se você quer aprender a correr, precisa ter tempo de pista. O instrutor de tiro age, nesse contexto, como um facilitador, alguém que pode te economizar muito tempo e munição e, por consequência, dinheiro.

Pare pra pensar: quantas horas e munições você precisaria para aprender uma habilidade específica sozinho, descobrindo as “manhas” de como fazê-la, e quanto seria necessário com alguém te entregando tudo mastigado? Muita gente acha instrução caro normalmente porque não calcula o preço da “não instrução”. Você pode gastar o dobro ou o triplo do tempo para chegar ao mesmo resultado sem passar por nenhum curso ou, talvez, nunca chegue, em temas mais complexos.

Não, a relação entre quantidade de munição e aprendizado não é linear e depende sensivelmente do tema que se pretende dominar.

Não se desenvolve nada repetindo o mesmo erro centenas de vezes. O tiro é condição necessária, mas não condição suficiente para o crescimento técnico.

Mais importante que treinar de modo exaustivo, é fazê-lo de maneira inteligente.

Nullius in verba.

Fundamentos do tiro não são só para iniciantes

Escrito por Lucas Silveira

O maior inimigo dos atiradores – neófitos e experientes – é, de longe, o ego.

Convencer atiradores (ou proprietários de armas) que exercem essa atividade há anos a participar de um curso “nível 1”, ou seja, no qual damos ênfase em fundamentos e segurança, é um desafio hercúleo.

Existe a incorreta noção de que tratar dos fundamentos do tiro é algo para gente iniciante, que não tem experiência em armas. Grande bobagem!

Os fundamentos do tiro(ou a falta deles) são os únicos responsáveis por você acertar (ou errar) um disparo. Não importa quão avançado seja o seu treinamento. Se você não acertou o tiro, seu erro estava na execução de um deles.

A realidade é inexorável. Desde a sua avó até o mais experiente Navy Seal, todos precisamos concentrar esforços, em parte do nosso treinamento, pra reler, repensar e praticar os fundamentos do tiro.

Posição, empunhadura, visada, respiração, controle de gatilho e follow through.  Cada um destes fundamentos mereceria um curso de 30 ou 40 horas, no mínimo, para ser tratado com o devido cuidado.

Entender o que é posição isósceles, weaver ou suas derivações não arranha a superfície do fundamento.

Acreditar que a empunhadura de uma pistola deva ser feita com os polegares à frente, ou que você deva fazer aquele super sexy “C Clamp” na carabina que você viu no canal mais legal do Instagram é tão raso quando imaginar que alinhar o dispositivo de pontaria com o alvo é suficiente para acertá-lo.

Os fundamentos não são os fundamentos porque são o básico. Eles o são porque são fundamentais para a prática do tiro, constituindo-se, portanto, a parte mais importante dele.

Nullius in verba!