Comparativo entre munições 5,56NATO fabricadas pela CBC

Introdução

Figura 01

O projeto do calibre 5,56x45mm começou em 1957, mas apenas no Sec XXI o o coloquialmente conhecido “5,56” passou, de fato, a se popularizar no Brasil, depois de anos de deletéria interferência do Exército Brasileiro.

Os fuzis nesse calibre, a exemplo do nacional T-4, fabricado pela Taurus, e dos clássicos importados, como da Armalite, Colt e Smith & Wesson, estão cada vez mais comuns em poder do homem livre.

As informações sobre a balística desse cartucho, contudo, para a maior parte dos usuários de fuzis, ainda são tristemente superficiais.

Este texto tem o objetivo de trazer uma breve comparação entre os principais tipo de cartuchos no calibre 5,56x45mm em fabricação, na data em que este texto é escrito, pelo fabricante nacional de munições.

Descrição inicial

O 5,56x45mm, ou 5,56 NATO ou vulgarmente 5,56 (cinco-cinco-meia), é um cartucho desenvolvido pela FN Herstal nos anos 1970, a partir do .223 Remington, desenvolvido pela Remington, na década de 1960.

Leitura recomendada:

O cartucho nasceu da necessidade de uma munição menor e mais amigável que o 7,62x51mm, com  uma balística entendida como necessária à época do seu desenvolvimento.

No Brasil, a Companhia Brasileira de Cartuchos, produz 8 tipos diferentes de 5,56, podendo causar dúvida quando da escolha do usuário:

  1. 5,56×45 Comum (Ball) – M193
  2. 5,56×45 Comum (Ball) – M193 Treina
  3. 5,56×45 Comum (Nato Ball) – SS109
  4. 5,56×45 High Performance
  5. 5,56×45 Steel Arrow Tip (SAT)
  6. 5,56×45 Traçante – L110
  7. 5,56×45 IR Tracer
  8. 5,56×45 Open Tip Match (OTM)

Vamos entender as características de cada um delas.

  1. 5,56×45 Comum (Ball) – M193

O M193 é o cartucho mais comum de 5,56. É uma munição com projétil de 55gr, indicado para alvos humanos, pequenos animais ou veículos não blindados.
ESPECIFICAÇÕES DO PRODUTO (Extraídas do site do fabricante)

Calibre: 5,56x45mm

Projétil: Comum (Ball) M193

Peso do Projétil (gr): 55

Peso do Projétil (g): 3,560

Utilização Genérica: Contra alvos não blindados ou com blindagem leve

Comprimento da Munição (mm): 57

Peso da Munição (g): 11,500

Velocidade a 24m (m/s): 965

Velocidade a 24m (pés/seg): 3,165

Energia a 24m (J): 1.658

Tempo de Ação (m/s), <=: 4

Velocidade e Tempo de Ação à temperatura de (°C): 21

Temperatura de Serviço (°C): -54 a +52

Coeficiente Balístico: 0,272

Material Estojo: Latão

Espoleta Iniciadora: Small Rifle Primer 7 1/2

Tipo de Espoleta Iniciadora: Boxer

2. 5,56×45 Comum (Ball) – M193 Treina

A munição treina é destinada unicamente a treinamentos.

ESPECIFICAÇÕES DO PRODUTO (Extraídas do site do fabricante)

Calibre: 5,56x45mm

Projétil: Comum (Ball) M193 Treina

Peso do Projétil (gr): 55

Peso do Projétil (g): 3,560

Utilização Genérica: Contra alvos não blindados ou com blindagem leve

Comprimento da Munição (mm): 57

Peso da Munição (g): 11,500

Velocidade a 24m (m/s): 965

Velocidade a 24m (pés/seg): 3,165

Energia a 24m (J): 1.658

Tempo de Ação (m/s), <=: 4

Velocidade e Tempo de Ação à temperatura de (°C): 21

Temperatura de Serviço (°C): -54 a +52

Passo de Raia recomendado: 1:12

Material Estojo: Latão

Espoleta Iniciadora: Small Rifle Primer 7 1/2

Tipo de Espoleta Iniciadora: Boxer

3. 5,56X45MM COMUM (NATO BALL) SS109

A SS109 é uma munição com um projétil mais pesado, se comparada com a M193. São 62 grains e, de acordo com a CBC, perfura uma chapa de aço SAE 1010 ou 1020 (dureza 55-70 HRb) de 3,5mm à distância de 570m.

ESPECIFICAÇÕES DO PRODUTO (Extraídas do site do fabricante)

Peso do Projétil (gr): 62

Peso do Projétil (g): 4

Comprimento da Munição (mm): 57

Peso da Munição (g): 12,100

Tempo de Ação (m/s), <=: 4

Velocidade e Tempo de Ação à temperatura de (°C): 21

4.  5,56X45MM HIGH PERFORMANCE

Esta é uma munição desenvolvida especialmente pra armas com cano com passo de raia 1:12. De acordo com a CBC, perfura uma chapa de aço SAE 1010 ou 1020 (dureza 55-70 HRb) de 3,5mm à distância de 570m.

Também usa o projétil de 55gr.

ESPECIFICAÇÕES DO PRODUTO (Extraídas do site do fabricante)

Calibre: 5,56x45mm

Projétil: High Performance

Peso do Projétil (gr): 55

Peso do Projétil (g): 3,560

Utilização Genérica: Contra alvos não blindados ou com blindagem leve

Comprimento da Munição (mm): 57

Peso da Munição (g): 12,200

Velocidade a 24m (m/s): 965

Velocidade a 24m (pés/seg): 3,166

Energia a 24m (J): 1.658

Tempo de Ação (m/s), <=: 4

Velocidade e Tempo de Ação à temperatura de (°C): 21

Temperatura de Serviço (°C): -54 a +52

Passo de Raia recomendado: 1:12

Material Estojo: Latão

Espoleta Iniciadora: Small Rifle Primer 7 1/2

Tipo de Espoleta Iniciadora: Boxer

5. 5,56×45 Steel Arrow Tip (SAT)

As munições SAT são produzidas para destruir blindados leves. De acordo com a CBC, perfura uma chapa de aço SAE 1010 ou 1020 (dureza 55-70 HRb) de 9,5mm à distância de 385m e de 3,5mm à distância de 570m.  Tem um projétil de 62gr.

Confira o vídeo promocional divulgado pela Companhia Brasileira de Cartuchos:

6.  5,56×45 Traçante – L110

As munições traçantes se acendem em voo, permitindo a sua visualização especialmente entre 140 e 660m da boca da arma.  A L110 usa projétil de 61gr, e é recomendada para armas com passo de raia 1:7.

Em decorrência do fósforo usado para gerar a sua luminosidade, sua trajetória é prejudicada, perdendo velocidade e, portanto, energia, mais rapidamente, se comparada com as munições SAT, SS109 ou M193.

ESPECIFICAÇÕES DO PRODUTO (Extraídas do site do fabricante)

Calibre: 5,56x45mm

Projétil: Traçante L110

Peso do Projétil (gr): 61

Peso do Projétil (g): 3,970

Utilização Genérica: Contra alvos não blindados ou com blindagem leve

Comprimento da Munição (mm): 57

Peso da Munição (g): 12,400

Velocidade a 24m (m/s): 863

Velocidade a 24m (pés/seg): 2,831

Energia a 24m (J): 1.480

Tempo de Ação (m/s), <=: 4

Velocidade e Tempo de Ação à temperatura de (°C): 21

Temperatura de Serviço (°C): -54 a +52

Passo de Raia recomendado: 1:7

Material Estojo: Latão

Espoleta Iniciadora: Small Rifle Primer 7 1/2

Tipo de Espoleta Iniciadora: Boxer

7. 5,56X45MM IR TRACER

As munições IR Tracer tem uma função tática específica: sua trajetória pode ser vista exclusivamente por operadores dotados de equipamento de visão noturna com tecnologia infravermelho, desde a boca do cano até cerca de 600m.

Assim, a olho nu, é impossível para os inimigos visualizarem sua origem, mas é factível ao atirador direcionar seus disparos de forma furtiva.

Usa um projétil de 61gr e tem o comportamento balístico equivalente à L110.

ESPECIFICAÇÕES DO PRODUTO (Extraídas do site do fabricante)

Calibre: 5,56x45mm

Projétil: IR Tracer

Peso do Projétil (gr): 61

Peso do Projétil (g): 3,970

Utilização Genérica: Contra alvos não blindados ou com blindagem leve

Comprimento da Munição (mm): 57

Peso da Munição (g): 12,400

Velocidade a 24m (m/s): 863

Velocidade a 24m (pés/seg): 2,831

Energia a 24m (J): 1.480

Tempo de Ação (m/s), <=: 4

Velocidade e Tempo de Ação à temperatura de (°C): 21

Temperatura de Serviço (°C): -54 a +52

Passo de Raia recomendado: 1:7

Material Estojo: Latão

Espoleta Iniciadora: Small Rifle Primer 7 1/2

Tipo de Espoleta Iniciadora: Boxer

8. 5,56X45MM OTM – OPEN TIP MATCH

A derradeira da nossa lista é a munição OTM. O projétil de 77 gr desses cartuchos é diferente: possui um pequeno furo na ponta, e o formato boat tail, com o objetivo de reduzir o arrasto.

A consequência é um voo mais lento, porém mais estável.

Gráficos comparativos entre diferentes munições

Considerações finais

Esse texto analisou as principais características das munições no calibre 5,56x45mm fabricadas pela Companhia Brasileira de Cartuchos. Os dados utilizados foram oriundos do próprio fabricante.
É necessário que futuras pesquisas obtenham estes dados por meio de medições próprias como forma de validar os números publicados.
Novos estudos também devem considerar munições de outros fabricantes e verificar os resultado a distâncias maiores que 300m.

Comparação entre os principais torniquetes do mercado

Torniquetes começaram a ser formalmente empregados entre militares americanos a partir de 1960.  De lá pra cá, notadamente após o começo do século XXI, a evolução desses materiais e da sua aplicação e testes em campo foi expressiva.

Assim, centenas de fabricantes em todo o mundo passaram a produzir equipamentos com o objetivo de cessar a hemorragia em membros. Nem todos, contudo, funcionam como deveriam.

O Comitê para o Tactical Combat Casualty Care (CoTCCC), seção do Joint Trauma System (JTS), divisão da Defense Health Agency, publicou as diretrizes iniciais para o atendimento pré-hospitalar de combate em 1996 e, atualmente, elenca uma série de torniquetes comerciais aprovados, conforme segue:

Este texto faz uma breve comparação entre os principais torniquetes do mercado, incluindo os citados pelo CoTCCC. Alguns deles, serão apresentados presencialmente na reunião do Projeto Papyrus – o grupo de estudos da Academia Brasileira de Armas – de 20 de  maio de 2020, podendo ser analisados também em vídeo.

Este material diz respeito exclusivamente aos torniquetes não pneumáticos.

Combat Aplication Tourniquet (CAT) – Aprovado pelo CoTCCC

Produzido pela North American Rescue, é o torniquete padrão do Exército Americano.

A versão mais moderna é o Geração 7, que se diferencia do modelo anterior por ter uma alavança (windlass) mais grossa e a tarja do lacre cinza ao invés de branco.

Parece ser o torniquete de mais rápida autoaplicação, se comparado com os demais. Possui uma ponta vermelha para fácil identificação.

Ratcheting Medical Tourniquet (RMT) Tactical – Aprovado pelo CoTCCC

Produzido pela m2inc, o RMT é aplicado de maneira ligeiramente dos CAT, pois funciona com um sistema de catracas, apertadas por meio de alavanca, conforme exibido no vídeo.

As instruções de uso são escritas no próprio torniquete permanentemente. Ele depende do auxílio da boca do operador para se autoaplicar em um dos braços.

SAM Extremity Tourniquet (SAM-XT) – Aprovado pelo CoTCCC

Produzido pela SAM Medical, o conceito principal desse torniquete é minimizar o número de voltas necessárias pela alavanca (windlass), graças a um sistema de furos e pinos, semelhante a um cinto, que se prendem ao atingir a melhor pressão.

De forma geral, a aplicação é idêntica a dos torniquetes CAT7. Diferente desses, contudo, o SAM tem a alavanca de metal (Alumínio 6061) e não de polímero, o que proporciona maior robustez.

SOF-Tactical Tourniquet-Wide (SOFTT-W)- Aprovado pelo CoTCCC

O SOF é um torniquete que aparenta  mais resistência que os demais aprovados pelo comitê. Ele já está na quarta geração, conta com um sistema de presilha que o distingue dos demais, permitindo abertura total mais rapidamente.

O SOF tem dois sistemas de segurança da alavanca, sendo um deles equivalente ao usado no CAT, e o segundo, um triângulo , onde é encaixada  a alavanca de alumínio de aviação.

Tactical Mechanical Tourniquet (TMT) – Aprovado pelo CoTCCC

Produzido pela Combat Medical, o TMT é um torniquete de alavanca semelhante ao SOF ou ao CAT, porém com algumas diferenças. Uma delas é o sistema de travamento: ao invés de ser dois semicírculos, como nos outros modelos, o TMT tem um sistema de encaixe que faz um “click” quando inserido. Ele também é mais largo, minimizando a dor do paciente quando da compressão.

TX2 Tourniquet (TX2) / TX3 Tourniquet (TX3) – Aprovado pelo CoTCCC

Os torniquetes TX2 e TX3 são produzidos pela RevMedX e recentemente aprovados pelo CoTCCC os dois modelos diferenciam-se entre si exclusivamente pela largura da banda. O TX2 tem 2 polegadas ao passo que o TX3 tem 3 polegadas.  Funcionam de forma semelhante aos RMT, com um sistema de catracas ao invés das alavancas do CAT ou SOF, necessitando portanto, também, do uso da boca do operador para autoaplicação em um dos braços.

As instruções de uso ficam permanentemente gravadas no próprio torniquete. A largura do torniquete ajuda a minimizar a dor do ferido.

Recon Tourniquet – Não aprovado pelo CoTCCC

Apesar de não ser um dos modelos recomendados pelo CoTCCC, o Recon Tourniquet, feito pela Recon Medical parece suficientemente confiável. Em alguns pontos, inclusive, até mais do que o clássico CAT.

Ele é o torniquete de menor custo desta lista, vendido pela metade do preço que o CAT, por exemplo.

Funciona com uma alavanca de metal e possui um furo próximo a extremidade para ajudar o operador a puxar a tira. A aplicação é executada da mesma maneira que o CAT, TMT ou SOF.

Considerações finais

Independente do torniquete que você escolha, o treinamento com o modelo escolhido é fundamental.

Ao se recomendar um equipamento para uso em combate, perguntas não usuais ao usuário comum devem ser feitas:

1. Ele tem rápida aplicação?

2. Ele funciona com diversos tipos de pessoas com diversas constituições físicas?

3. O equipamento suporta temperaturas extremas?

4. Ele continuará funcionando quando o socorrido for removido, arrastado ou precisar continuar combatendo?

5. É possível de ser aplicado usando luvas ou mãos ensanguentadas?

6. É possível de ser utilizado no escuro?

É impossível conhecer todos os tipos de torniquetes produzidos pelo mercado. Evidentemente o CoTCCC não testa cada um deles. Existem bons torniquetes que podem não ser reconhecidos pelo comitê e não foram abordados neste texto.

Lembre-se ainda de que infelizmente existem falsificações desses equipamentos disponíveis no mercado, que não atendem a nenhum padrão normativo e, portanto, devem ser rejeitados de pronto.

Balística Terminal – Um pequeno apanhado sobre o assunto

Raphael Pontes é instrutor de tiro, membro fundador do grupo de estudos Papyrus e acadêmico de Direito
  1. Introdução

Atualmente, no mundo do tiro, a balística terminal volta a ser matéria de recorrência a evidência, assunto esse, abordado entre profissionais das forças policiais, atiradores, instrutores e técnicos da área.

Diga-se de passagem, tal assunto é de fundamental importância, visto que, no Brasil em específico, durante longos anos, legados são proferidos como verdades absolutas, o que acabou criando demasiada desinformação, criando falsas seguranças aos operadores de calibres e munições obsoletas, bem como, criando jurisprudência e entendimento técnico arcaico, quanto à balística terminal e seus efeitos deletérios.

Portanto, o texto escrito por mim, de maneira absolutamente humilde, depois de longos estudos em cima da doutrina do ilustre Vincent Dimaio (Gunshot Wounds – Practical Aspects os Firearms, Balistics na Forensic Techniques), bem como o extraordinário estudioso do assunto Delegado da Polícia Civil do Estado de Santa Catarina, João da Cunha Neto (Balística para Profissionais do Direito), nos trazem conceitos modernos da balística terminal ao nosso mundo do tiro.

2. Balística Terminal aplicada

Quando abordamos o tema de incapacitação por arma de fogo, o cerne da questão é a teoria da incapacitação. Não obstante é importante saber que a principal relação é a do projétil com o meio em que ele atinge, portanto, a teoria da velocidade da incapacitação.

Neste ínterim, é sabido que para se incapacitar um corpo por meio de um disparo, é necessária a entrada de diversos fatos em discussão, dentre eles, variáveis psicológicas, fisiológicas, letalidades de calibres e armas em questão.

De acordo com SWEENEY, existem duas formas de incapacitação imediata, seja ela por disparo no famigerado “T da morte”, ou na linguagem técnica, sistema nervoso central onde se denomina como tronco encefálico, ou a coluna cervical alta do agressor.

Não obstante, há a possibilidade de a cadência e o agrupamento dos disparos em locais altamente vascularizados, causem um sangramento massivo que faça com que a pressão sanguínea caia de maneira abrupta que o choque hipovolêmico onere a incapacitação do cidadão infrator.

Talvez aí, seja o cerne da questão em discussão, falando de combates urbanos, principalmente para os cidadãos civis que portam armas curtas, ou seja, de baixa energia, visto que, em um confronto um operador treinado possa desperdiçar até 87% dos seus disparos, é absolutamente dificultoso que se acerte um único disparo na cabeça para que assim se cesse a agressão imediatamente.

Não é difícil, portanto, entender que disparos em locais diferentes dos citados acima, são uma verdadeira “loteria”, pois mesmo que atingido em grandes vasos, a pessoa que tenta contra sua vida, tem tempo suficiente para terminar o seu serviço, falando em termos técnicos, até que o sangramento massivo diminua o transporte de oxigênio ao cérebro, há tempo suficiente do agressor descarregar um carregador de 15 munições contra você.

3. Efeitos Psicológicos/Deletérios do Combate

Dando sequência ao assunto abordado, os efeitos psicológicos do combate, trazem algumas consequências demasiadamente indesejáveis ao combatente, especificamente a carga abrupta de cortisol, adrenalina e anti-trombina liberada no sangue, oneram principalmente a famosa “visão de túnel, perda da coordenação motora fina, audição e questões de caráter sensoriais. Daí, fica clara a premissa de que em combate, 87% dos disparos são desperdiçados.

As consequências dos disparos sofridos em um corpo humano, dependerão principalmente da localização do disparo, efeitos de drogas que o sujeito pode ter consumido, sobrevivência, e mentalidade de combate.

Especificamente, na mentalidade de combate, existem formas de treinamentos focadas especificamente nessa relação, em treinamento baseados em cenários (Murray), que preparam o operador a reagir de maneira mais tênue aos efeitos deletérios do combate, bem como o treinamento correto, que criam memória muscular, fator este preponderante em combate, mas isso, eu acredito que seja tema para um outro texto, visto sua complexidade e extensão a abordagem.

4. Letalidade (cavidade temporária x cavidade permanente)

É importante frisar que, os projéteis não funcionam como lâminas, que cortam tecidos, mas sim que possam vir a rompê-los pela sua energia ou seja a Cavidade Permanente. E, não obstante, mudam sua trajetória, podendo perder sua massa e consequentemente sua velocidade, quando entram em contato com meios duros, sejam eles ossos, ou portas de veículos e paredes, por exemplo.

No caso do dano secundário, causado pela cavidade temporária, pela velocidade do projétil ao “entrar” no corpo humano.

Portanto, quanto maior o diâmetro do projétil, maior será o dano de tecido no corpo, que, gerará a incapacitação causada pelo sangramento massivo. No caso dos projéteis expansivos, maior será a dissipação de energia dentro do corpo, teoricamente, aumentando a extensão dos danos. Em contrapartida, menor será a sua penetração, visto que esses projéteis se expandem em meios hidro-sólidos, aumentando a área de tecidos atingidos.

Por curiosidade, o FBI fala em penetração de 12 a 18 polegadas como uma resultante satisfatória, coisa que pelo menos em munições expansivas nacionais, por seus resultados erráticos, não trazem esse feedback, mas sim, resultados insatisfatórios, como relatos de munições expansivas que se deformaram e perderam completamente a sua energia ao atingir uma Jaqueta de frio.

Por exemplo, 85% dos tiros no tórax, atingem algum osso, fronte ao resultado ruim das munições expansivas nacionais, é sabido que esse projétil dificilmente irá atingir grandes vasos ou órgãos demasiadamente vascularizados, daí podemos considerar que não são os mais indicados para defesa, e principalmente desmistificando o famigerado “mito do stoping power”.

Em munições de alta energia, como por exemplo o 5,56x45mm ou o 7,62x51mm, dada sua alta energia, temos o fenômeno do dano secundário, uma vez que ao momento que o projétil encontra a estrutura corpórea, sua demasiada energia, além de romper completamente tecidos, quebrar ossos e se fragmentar, aumentando a área da lesão, causa lesões secundárias exatamente por sua enorme energia, podendo até levar o infrator ao óbito, por um dano cerebral, antes que o sangramento da área atingida o mate.

5. Qual arma/calibre escolher

O que se procura hoje, é a balística mais equilibrada, podendo assim dizer, especificamente, temos em evidência o calibre 9x19mm, que atualmente é empregado pela maioria das forças policias e militares ao redor do mundo.

Exatamente por ser munido de uma balística muito uniforme (velocidade e transfixação) utilizando munições ogivais, onde o núcleo do projétil, normalmente feito de chumbo é englobado por uma camisa de cobre-níquel, tornando-a mais “dura”, e, portanto, onerando uma menor perda de massa, quando encontram barreiras físicas ou corpóreas (ossos).

Bem como, por sua maior capacidade de munição, usando como exemplo plataformas de pistolas como a Glock G19, que tem capacidade de 15 tiros mais 01, ou até mais, dependendo do carregador utilizado, e seu baixo recuo, proporcionando melhor e mais rápido ganho de alça e massa de mira, permitindo diversos disparos em regiões letais, facilitando o operador em confronto diante dos efeitos deletérios do stress em combate.

Contudo, atualmente, calibres como o .45ACP que tem uma balística “fantástica”, acabam sendo deixados de lado, exatamente pelo nível de treinamento exigido para que seja operado com maestria, pela sua baixa capacidade de munição na sua plataforma, e pelo seu alto recuo proporcionado pelos disparos, impedindo uma boa recuperação de alça e massa e consequentemente impedindo, também, uma boa cadência de tiro.

As munições expansivas nacionais, por terem a engenharia que proporciona fragmentação e expansão, geram temores e resultados erráticos, visto que pode se “desfazer” ao atingir os meios corpóreos, não proporcionando penetração suficiente para atingir grandes órgãos e causar sangramento massivo, consequentemente perdendo massa e diretamente velocidade e energia.

Calibres de armas longas, como o já citado 5,56x45mm são munidos de alto poder de incapacitação, seja pelo seu dano primário, mas também pelo dano secundário que causam, exatamente pela alta energia que proporciona

6. Conclusões:

Dentro do exposto, de maneira absolutamente humilde, de um “fanático pelos estudos do combate” e munido de excelentes e modernas obras, podemos concluir que:

  • O que se quer é – 12 polegadas (30 cm) de penetração, regra de ouro da balística do FBI;
  • Policiais acertam 17% dos disparos em confronto. (Qual é então a preocupação em excesso de transfixação se você naturalmente erra a maioria dos disparos?);
  • Penetração – Cavidade temporária – cavidade permanente, não incluindo o cérebro e o fígado que são tecidos elásticos e, portanto, armas curtas não rompem tecidos elásticos devida sua baixa energia);
  • Nos casos de armas de baixa energia, a regra de ouro é o choque hipovolêmico (sangramento massivo) causado pela grande quantidade de disparos agrupados;
  • Possibilidade de incapacitação psicológica: Reação corporal (suprarrenais e adrenalina) ou pré-disposição para o combate;
  • A diferença é acertar – .40S&W tem 670J de energia – 9x19mm tem 620J, a diferença de energia é irrisória praticamente, só que com o 9x19mm você acerta, com o .40S&W não! E só depois de 27 anos o FBI voltou atrás dessa premissa;
  • Quem escreveu sobre “stopping power”, depois de 15 anos afirmou que o estudo não é válido. Sendo que o .40S&W é o pior dos mundos, não tem energia de um 10mm auto e não tem o resultado balístico do 9x19mm;

Se você não concorda, ou tem pontos a acrescentar, a Academia Brasileira de Armas, além de ser um centro de treinamento de uso da força, tem seu grupo de estudos (Projeto Papyrus), do qual eu faço parte e dentro dele nos reunimos e discutimos sobre diversos assuntos, principalmente o tema de “Balística Terminal”, nossos colegas com formações de diversas áreas, sejam elas técnicas ou táticas.

Treinem sempre para o pior cenário, criem a mentalidade de combate, usem a modernidade e os bons materiais em seu favor, não parem de questionar, bem como seguir os ótimos profissionais que temos no Brasil hoje, relacionado a esse assunto e tantos outros.

Estamos sempre juntos, para melhorar e agregar conhecimento.

NULLIUS IN VERBA!

Não é legal ser old school no combate

As vezes o velho vira clássico, o ultrapassado vira retrô, o antiquado se torna vintage. Os eufemismos transbordam quando o objetivo é declarar que alguma coisa – ou comportamento – simplesmente ficou velha.

Quando o assunto é um corte de cabelo ou um carro, pode ser divertido, mas no momento em que o que está em jogo é a sua vida ou a da pessoa ao seu lado, o seu apego ao obsoleto pode custar muito mais que dinheiro.

A tecnologia no uso da força avança em progressão geométrica. A cada dia surgem novos objetos, acessórios e, principalmente, técnicas. Boa parte delas, é claro, são apenas produtos de marketing, sem eficácia real, senão para os vendedores. Uma pequena porção, contudo, é consubstanciada pela concretização de anos de aprendizado e o estado da arte na ciência pertinente.

No seu treino, pode ser interessante, ocasionalmente, impor uma dificuldade decorrente da obsolescência do seu equipamento.  Miras de aço preto, por exemplo.

No combate, contudo, o que se quer é usar todos os meios disponíveis pela tecnologia para auferir o máximo de vantagem. Não economize na melhor mira eletrônica do mercado. O que está em jogo é  sua incolumidade.

O mesmo vale para o treinamento. A Segunda Guerra Mundial foi lutada com basicamente nenhuma semelhança de técnicas, táticas e equipamentos com o que se faz hoje. Provavelmente qualquer Exército dos anos 40 não duraria 10 minutos contra um Exército moderno.

Deixe o seu ego fora do combate. Ele não vai salvar a sua vida. A tecnologia, sim.

Disciplina de luz

Lucas Silveira

Instrutor-chefe

Introdução

Disciplina de luz significa utilizar os recursos disponíveis de iluminação – artificial própria, artificial de terceiros e natural – de maneira ótima a fim de obter vantagem tática no combate.

É razoável supor que se você vai usar sua arma de fogo em combate, pode ser que isso aconteça em condições de luminosidade ruim, que podem ser decorrentes do horário avançado do dia ou do efeito de  penumbra causado pela diferença de iluminação em ambientes externos e internos.

penumbra

Significado de Penumbra

substantivo femininoMeia-luz; ponto que se encontra entre a luz e a sombra; ponto de transferência entre a luz e a sombra; mudança gradativa da luz para a sombra.[Figurado] Ausência de importância; que não é de conhecimento público: o artista está na penumbra da fama.Etimologia (origem da palavra penumbra). Do latim paene + umbra.ae.

A inteligência nas práticas relacionadas ao uso eficiente da luz pode dar vantagem a quem faz o stalking ou a quem avança em território novo.

A visão

Para entender como se comportar em luminosidades diversas é preciso ter uma noção elementar de como funciona o olho humano,

Sem a pretensão de formar uma turma de oftalmos com este texto, existem estruturas  especialmente relevantes nos olhos quando o assunto é tiro e combate.

Temos a córnea, que em conjunto com o cristalino, funcionam como lente, a íris, que ajusta a abertura da pupila, permitindo maior  ou menor entrada de luz, e a retina, que transforma as ondas de luz em informação visual.

A retina, parte mais importante do olho para os efeitos deste texto, tem dois tipos de células fotossensíveis: os cones e os bastonetes.

São cerca de 6 milhões de cones e 120 milhões de bastonetes no fundo do seu olho. Os primeiros ocupam a parte central da retina e são responsáveis pela visão diurna (fotópica) e diferenciação entre as cores, a partir de azuis, verdes e vermelhos (RGB, você já deve ter ouvido falar disso no seu photoshop, monitor, etc). Já os bastonetes ocupam a periferia da retina e, adivinhem só? São responsáveis pela visão noturna (escotópica).

Os bastonetes não tem diferenciação cromática – você não enxerga cores no escuro, têm uma substância chamada rodopsina que se decompõe quando exposta a luz e leva de 15 a 20 minutos para ser refeita. Por isso, a transição da visão fotópica para a escotópica pode pregar peças nos operadores (visão mésopica).

Com baixa luminosidade, a iris permite a abertura da pupila, o que leva a maior incidência de luz – proporcionalmente – sobre a retina, o que gera a diminuição da profundidade de campo. Assim como uma objetiva de uma câmera profissional, com abertura f/2.5, o objeto da fotografia (ou da visão) fica focado, mas toda a periferia fica indistinguível.

Como você acha que isso afeta a sua capacidade combativa?

Iluminação artificial própria

Para começar, é importante que o operador tenha no mínimo uma lanterna – preferencialmente mais – disponível a todo o momento. Lanternas em casa, ou na mochila dentro do carro, não apenas peso morto.

As lanternas devem ser suficientemente compactas para serem portadas diuturnamente, robustas para suportarem impactos, discretas para não refletirem a – ainda que escassa – luz ambiente e suficientemente potentes para impedir o acesso visual àquilo que está atrás do feixe de luz.

Uma alternativa óbvia são as lanternas dedicadas que vinculam o porte de uma arma – longa ou curta – ao porte da lanterna. Em contrapartida, lanternas presas à armas deve ter sistema de desconexão rápido, de outra forma, o operador pode se ver varrendo – com o cano da arma – os próprios colegas ou membros para iluminar algo.

Vestimenta e acessórios

As vestimentas devem priorizar a descrição. Se você não faltou nas suas aulas da quarta-série, deve se lembrar de que as cores mais claras refletem mais luz, enquanto as cores mais escuras, absorvem mais.

Quando uma luz branca incide sobre um objeto verde, o objeto absorve todas as cores, exceto a verde, que é refletida, chegando até os seus cones, na sua retina, que processam a informação de que aquele objeto é verde.

Quando a luz branca incide sobre um objeto branco, todas as cores são refletidas, chegando simultaneamente na sua retina, que processa a informação do seu somatório como um objeto branco.

Quando a luz branca incide sobre um objeto preto, nenhuma cor é refletida.

É fácil inferir, portanto, que cores sóbrias (preto e tons de cinza) devem ter prioridade sobre cores alegres (branco, amarelo, etc).

É preciso ter atenção também quanto a fontes de luz própria normalmente ignorada – celulares, mesmo dentro dos bolsos, iluminam o suficiente para denunciar sua posição no escuro. Relógios têm botões de luz que podem ser acionados involuntariamente e o seu vidro também reflete ondas de luz indesejadas.

Penumbra

O senso comum imagina que a disciplina de luz ou o combate em baixa luminosidade aconteça apenas à noite. Em horários de sol a pino, contudo, formam-se sombras duras onde o operador cauteloso desejará estar para minimizar a denuncia da sua posição.

As pupilas comprimidas do observador ao sol em conjunto com a rodopsina quebrada, não permitem que os bastonetes recebam a informação de uma ameaça à sombra, por exemplo.

De forma semelhante, ambientes fechados desde edificações até matas podem proporcionar pouca luz, mesmo durante o dia. A transição dos ambientes de muita para pouca iluminação é o ponto de ouro do combate em baixa luminosidade.

Sombras

Mesmo à noite, corpos formam sombras, não raramente mais duras (bem definidas) ou compridas que e em ambientes iluminados.

Imagine as sombras de pés passando pelo vão da porta, ou a bela silhueta de um atirador incauto escondido atrás de um abrigo.

Além disso, sombras são aliadas a quem pretende se passar despercebido. Mantenha-se no local mais escuro.

Iluminação natural

Em noites de lua cheia a visibilidade é muito boa em ambientes abertos. Com exceção de noites de lua minguante ou absolutamente nubladas, existe luz suficiente para criar silhuetas, sombras e oferecer ao operador oportunidades de identificar ameaças ou se livrar discretamente delas.

Além das fontes primárias de iluminação natural – sol, lua, ocasionalmente fogo – que podem ser exploradas de acordo com o comentado no item “penumbra”, existem ainda as fontes secundárias de luz: o reflexo numa parede branca, oriundo de um lago ou da areia da praia ou deserto, por exemplo.

Iluminação de terceiros

A iluminação pode ser deliberada, ocasional ou não intencional.  Essa luz pode vir a partir de uma lanterna de um inimigo que te procura no escuro, pode ser de um carro desavisado virando a esquina ou, por descuido, de uma lanterna no bolso que acendeu sem querer, quando ele flexionou o quadril ou até a ponta de um cigarro aceso ou a palma da mão branca refletindo a lua – acontece muito com atiradores de fuzis com ação mauser.

Em regra, a iluminação de terceiros fornece uma série de informações importantes para o combate: a provável localização de pelo menos um dos inimigos, o tipo de iluminação utilizado e, por consequência, o seu nível técnico provável, o nível de alerta, a quantidade de inimigos – se a iluminação deliberada for feira de forma errada, etc.

Tecnologias

Em 2020 as lanternas cada vez se tornam coisa do passado. Câmeras de brinquedo conseguem reproduzir imagens com qualidade de ambientes com pouquíssima luz.

Os equipamentos de visão noturna, ativos e passivos, são disponíveis desde celulares, veículos, brinquedos de crianças até NVGs de alto padrão de dezenas de milhares de dólares.

Compensa pensar em usar algo assim se a chance de você combater em condições ruins de luminosidade for razoável.

Treinamento

A Academia Brasileira de Armas oferece treinamentos para grupos privados, abertos ou institucionais de combate em baixa luminosidade. Clique aqui e acesse nosso conograma.