Quantos disparos deve ter um curso de tiro?

Escrito por Lucas Silveira.

Em um país onde o acesso a munição é escasso,  seja pelo alto preço decorrente da tributação confiscatória ou pela legislação draconiana que apenas assegura direitos aos criminosos, os cidadãos valorizam muito o quantitativo de disparos em uma instrução de tiro.

Será, contudo, que existe uma relação direta entre quantidade de disparos e curva de aprendizado? É possível que existam temas onde a quantidade de disparos necessária seja maior e outros temas onde o número de tiros possa (ou deva) ser menor?

O primeiro ponto é compreender a diferença entre cursos de tiro – strictu sensu – e cursos táticos ou especializados.

Imagine, por exemplo, que o seu objetivo seja treinar “controle de recuo”. Costumamos fazer isso por meio de sessões sucessivas de “Bill Drill” (6 disparos por vez).  Qualquer pessoa, mesmo com muito pouco treinamento, consegue fazer 6 disparos em 5 segundos. De onde se pode estimar uma taxa de consumo de munição de 72 tiros por minuto ou 4.320 disparos por hora. Ok, é claro que existem pausas entre as séries de 6 disparos, mais o tempo de municiar os carregadores e, eventualmente de conferir os alvos. Vamos considerar então 50% deste tempo? Ou quem sabe, 10% do total? 432 disparos por hora de treino de controle de recuo.

Vamos pensar agora no lado oposto. Cursos táticos ou especializados. Para ilustrar, vamos usar nosso curso de DEFESA ARMADA PARA MOTOCICLISTAS. O primeiro dia do curso é composto exclusivamente pela instrução de pilotagem. Nenhum disparo. O segundo dia começa com teoria, técnicas específicas de saque, movimentação e tiro em si para motociclistas sobre e ao redor da moto. Para cada exercício o atirador pode fazer 1, 2 ou, se quiser esbanjar, até 10 disparos, mas provavelmente isso não vai acrescentar muito à curva de aprendizado. Em um curso destes para que se gaste 100 a 200 disparos, em dois dias (16 horas/aula), é muito difícil.

O que se pode concluir disso?

Em cursos de tiro propriamente dito existe uma necessidade maior de consumo de munição. Não tem jeito. Se você quer aprender a nadar, precisa gastar tempo dentro da água. Se você quer aprender a correr, precisa ter tempo de pista. O instrutor de tiro age, nesse contexto, como um facilitador, alguém que pode te economizar muito tempo e munição e, por consequência, dinheiro.

Pare pra pensar: quantas horas e munições você precisaria para aprender uma habilidade específica sozinho, descobrindo as “manhas” de como fazê-la, e quanto seria necessário com alguém te entregando tudo mastigado? Muita gente acha instrução caro normalmente porque não calcula o preço da “não instrução”. Você pode gastar o dobro ou o triplo do tempo para chegar ao mesmo resultado sem passar por nenhum curso ou, talvez, nunca chegue, em temas mais complexos.

Não, a relação entre quantidade de munição e aprendizado não é linear e depende sensivelmente do tema que se pretende dominar.

Não se desenvolve nada repetindo o mesmo erro centenas de vezes. O tiro é condição necessária, mas não condição suficiente para o crescimento técnico.

Mais importante que treinar de modo exaustivo, é fazê-lo de maneira inteligente.

Nullius in verba.

Fundamentos do tiro não são só para iniciantes

Escrito por Lucas Silveira

O maior inimigo dos atiradores – neófitos e experientes – é, de longe, o ego.

Convencer atiradores (ou proprietários de armas) que exercem essa atividade há anos a participar de um curso “nível 1”, ou seja, no qual damos ênfase em fundamentos e segurança, é um desafio hercúleo.

Existe a incorreta noção de que tratar dos fundamentos do tiro é algo para gente iniciante, que não tem experiência em armas. Grande bobagem!

Os fundamentos do tiro(ou a falta deles) são os únicos responsáveis por você acertar (ou errar) um disparo. Não importa quão avançado seja o seu treinamento. Se você não acertou o tiro, seu erro estava na execução de um deles.

A realidade é inexorável. Desde a sua avó até o mais experiente Navy Seal, todos precisamos concentrar esforços, em parte do nosso treinamento, pra reler, repensar e praticar os fundamentos do tiro.

Posição, empunhadura, visada, respiração, controle de gatilho e follow through.  Cada um destes fundamentos mereceria um curso de 30 ou 40 horas, no mínimo, para ser tratado com o devido cuidado.

Entender o que é posição isósceles, weaver ou suas derivações não arranha a superfície do fundamento.

Acreditar que a empunhadura de uma pistola deva ser feita com os polegares à frente, ou que você deva fazer aquele super sexy “C Clamp” na carabina que você viu no canal mais legal do Instagram é tão raso quando imaginar que alinhar o dispositivo de pontaria com o alvo é suficiente para acertá-lo.

Os fundamentos não são os fundamentos porque são o básico. Eles o são porque são fundamentais para a prática do tiro, constituindo-se, portanto, a parte mais importante dele.

Nullius in verba!