Balística Terminal – Um pequeno apanhado sobre o assunto

Raphael Pontes é instrutor de tiro, membro fundador do grupo de estudos Papyrus e acadêmico de Direito
  1. Introdução

Atualmente, no mundo do tiro, a balística terminal volta a ser matéria de recorrência a evidência, assunto esse, abordado entre profissionais das forças policiais, atiradores, instrutores e técnicos da área.

Diga-se de passagem, tal assunto é de fundamental importância, visto que, no Brasil em específico, durante longos anos, legados são proferidos como verdades absolutas, o que acabou criando demasiada desinformação, criando falsas seguranças aos operadores de calibres e munições obsoletas, bem como, criando jurisprudência e entendimento técnico arcaico, quanto à balística terminal e seus efeitos deletérios.

Portanto, o texto escrito por mim, de maneira absolutamente humilde, depois de longos estudos em cima da doutrina do ilustre Vincent Dimaio (Gunshot Wounds – Practical Aspects os Firearms, Balistics na Forensic Techniques), bem como o extraordinário estudioso do assunto Delegado da Polícia Civil do Estado de Santa Catarina, João da Cunha Neto (Balística para Profissionais do Direito), nos trazem conceitos modernos da balística terminal ao nosso mundo do tiro.

2. Balística Terminal aplicada

Quando abordamos o tema de incapacitação por arma de fogo, o cerne da questão é a teoria da incapacitação. Não obstante é importante saber que a principal relação é a do projétil com o meio em que ele atinge, portanto, a teoria da velocidade da incapacitação.

Neste ínterim, é sabido que para se incapacitar um corpo por meio de um disparo, é necessária a entrada de diversos fatos em discussão, dentre eles, variáveis psicológicas, fisiológicas, letalidades de calibres e armas em questão.

De acordo com SWEENEY, existem duas formas de incapacitação imediata, seja ela por disparo no famigerado “T da morte”, ou na linguagem técnica, sistema nervoso central onde se denomina como tronco encefálico, ou a coluna cervical alta do agressor.

Não obstante, há a possibilidade de a cadência e o agrupamento dos disparos em locais altamente vascularizados, causem um sangramento massivo que faça com que a pressão sanguínea caia de maneira abrupta que o choque hipovolêmico onere a incapacitação do cidadão infrator.

Talvez aí, seja o cerne da questão em discussão, falando de combates urbanos, principalmente para os cidadãos civis que portam armas curtas, ou seja, de baixa energia, visto que, em um confronto um operador treinado possa desperdiçar até 87% dos seus disparos, é absolutamente dificultoso que se acerte um único disparo na cabeça para que assim se cesse a agressão imediatamente.

Não é difícil, portanto, entender que disparos em locais diferentes dos citados acima, são uma verdadeira “loteria”, pois mesmo que atingido em grandes vasos, a pessoa que tenta contra sua vida, tem tempo suficiente para terminar o seu serviço, falando em termos técnicos, até que o sangramento massivo diminua o transporte de oxigênio ao cérebro, há tempo suficiente do agressor descarregar um carregador de 15 munições contra você.

3. Efeitos Psicológicos/Deletérios do Combate

Dando sequência ao assunto abordado, os efeitos psicológicos do combate, trazem algumas consequências demasiadamente indesejáveis ao combatente, especificamente a carga abrupta de cortisol, adrenalina e anti-trombina liberada no sangue, oneram principalmente a famosa “visão de túnel, perda da coordenação motora fina, audição e questões de caráter sensoriais. Daí, fica clara a premissa de que em combate, 87% dos disparos são desperdiçados.

As consequências dos disparos sofridos em um corpo humano, dependerão principalmente da localização do disparo, efeitos de drogas que o sujeito pode ter consumido, sobrevivência, e mentalidade de combate.

Especificamente, na mentalidade de combate, existem formas de treinamentos focadas especificamente nessa relação, em treinamento baseados em cenários (Murray), que preparam o operador a reagir de maneira mais tênue aos efeitos deletérios do combate, bem como o treinamento correto, que criam memória muscular, fator este preponderante em combate, mas isso, eu acredito que seja tema para um outro texto, visto sua complexidade e extensão a abordagem.

4. Letalidade (cavidade temporária x cavidade permanente)

É importante frisar que, os projéteis não funcionam como lâminas, que cortam tecidos, mas sim que possam vir a rompê-los pela sua energia ou seja a Cavidade Permanente. E, não obstante, mudam sua trajetória, podendo perder sua massa e consequentemente sua velocidade, quando entram em contato com meios duros, sejam eles ossos, ou portas de veículos e paredes, por exemplo.

No caso do dano secundário, causado pela cavidade temporária, pela velocidade do projétil ao “entrar” no corpo humano.

Portanto, quanto maior o diâmetro do projétil, maior será o dano de tecido no corpo, que, gerará a incapacitação causada pelo sangramento massivo. No caso dos projéteis expansivos, maior será a dissipação de energia dentro do corpo, teoricamente, aumentando a extensão dos danos. Em contrapartida, menor será a sua penetração, visto que esses projéteis se expandem em meios hidro-sólidos, aumentando a área de tecidos atingidos.

Por curiosidade, o FBI fala em penetração de 12 a 18 polegadas como uma resultante satisfatória, coisa que pelo menos em munições expansivas nacionais, por seus resultados erráticos, não trazem esse feedback, mas sim, resultados insatisfatórios, como relatos de munições expansivas que se deformaram e perderam completamente a sua energia ao atingir uma Jaqueta de frio.

Por exemplo, 85% dos tiros no tórax, atingem algum osso, fronte ao resultado ruim das munições expansivas nacionais, é sabido que esse projétil dificilmente irá atingir grandes vasos ou órgãos demasiadamente vascularizados, daí podemos considerar que não são os mais indicados para defesa, e principalmente desmistificando o famigerado “mito do stoping power”.

Em munições de alta energia, como por exemplo o 5,56x45mm ou o 7,62x51mm, dada sua alta energia, temos o fenômeno do dano secundário, uma vez que ao momento que o projétil encontra a estrutura corpórea, sua demasiada energia, além de romper completamente tecidos, quebrar ossos e se fragmentar, aumentando a área da lesão, causa lesões secundárias exatamente por sua enorme energia, podendo até levar o infrator ao óbito, por um dano cerebral, antes que o sangramento da área atingida o mate.

5. Qual arma/calibre escolher

O que se procura hoje, é a balística mais equilibrada, podendo assim dizer, especificamente, temos em evidência o calibre 9x19mm, que atualmente é empregado pela maioria das forças policias e militares ao redor do mundo.

Exatamente por ser munido de uma balística muito uniforme (velocidade e transfixação) utilizando munições ogivais, onde o núcleo do projétil, normalmente feito de chumbo é englobado por uma camisa de cobre-níquel, tornando-a mais “dura”, e, portanto, onerando uma menor perda de massa, quando encontram barreiras físicas ou corpóreas (ossos).

Bem como, por sua maior capacidade de munição, usando como exemplo plataformas de pistolas como a Glock G19, que tem capacidade de 15 tiros mais 01, ou até mais, dependendo do carregador utilizado, e seu baixo recuo, proporcionando melhor e mais rápido ganho de alça e massa de mira, permitindo diversos disparos em regiões letais, facilitando o operador em confronto diante dos efeitos deletérios do stress em combate.

Contudo, atualmente, calibres como o .45ACP que tem uma balística “fantástica”, acabam sendo deixados de lado, exatamente pelo nível de treinamento exigido para que seja operado com maestria, pela sua baixa capacidade de munição na sua plataforma, e pelo seu alto recuo proporcionado pelos disparos, impedindo uma boa recuperação de alça e massa e consequentemente impedindo, também, uma boa cadência de tiro.

As munições expansivas nacionais, por terem a engenharia que proporciona fragmentação e expansão, geram temores e resultados erráticos, visto que pode se “desfazer” ao atingir os meios corpóreos, não proporcionando penetração suficiente para atingir grandes órgãos e causar sangramento massivo, consequentemente perdendo massa e diretamente velocidade e energia.

Calibres de armas longas, como o já citado 5,56x45mm são munidos de alto poder de incapacitação, seja pelo seu dano primário, mas também pelo dano secundário que causam, exatamente pela alta energia que proporciona

6. Conclusões:

Dentro do exposto, de maneira absolutamente humilde, de um “fanático pelos estudos do combate” e munido de excelentes e modernas obras, podemos concluir que:

  • O que se quer é – 12 polegadas (30 cm) de penetração, regra de ouro da balística do FBI;
  • Policiais acertam 17% dos disparos em confronto. (Qual é então a preocupação em excesso de transfixação se você naturalmente erra a maioria dos disparos?);
  • Penetração – Cavidade temporária – cavidade permanente, não incluindo o cérebro e o fígado que são tecidos elásticos e, portanto, armas curtas não rompem tecidos elásticos devida sua baixa energia);
  • Nos casos de armas de baixa energia, a regra de ouro é o choque hipovolêmico (sangramento massivo) causado pela grande quantidade de disparos agrupados;
  • Possibilidade de incapacitação psicológica: Reação corporal (suprarrenais e adrenalina) ou pré-disposição para o combate;
  • A diferença é acertar – .40S&W tem 670J de energia – 9x19mm tem 620J, a diferença de energia é irrisória praticamente, só que com o 9x19mm você acerta, com o .40S&W não! E só depois de 27 anos o FBI voltou atrás dessa premissa;
  • Quem escreveu sobre “stopping power”, depois de 15 anos afirmou que o estudo não é válido. Sendo que o .40S&W é o pior dos mundos, não tem energia de um 10mm auto e não tem o resultado balístico do 9x19mm;

Se você não concorda, ou tem pontos a acrescentar, a Academia Brasileira de Armas, além de ser um centro de treinamento de uso da força, tem seu grupo de estudos (Projeto Papyrus), do qual eu faço parte e dentro dele nos reunimos e discutimos sobre diversos assuntos, principalmente o tema de “Balística Terminal”, nossos colegas com formações de diversas áreas, sejam elas técnicas ou táticas.

Treinem sempre para o pior cenário, criem a mentalidade de combate, usem a modernidade e os bons materiais em seu favor, não parem de questionar, bem como seguir os ótimos profissionais que temos no Brasil hoje, relacionado a esse assunto e tantos outros.

Estamos sempre juntos, para melhorar e agregar conhecimento.

NULLIUS IN VERBA!

Não é legal ser old school no combate

As vezes o velho vira clássico, o ultrapassado vira retrô, o antiquado se torna vintage. Os eufemismos transbordam quando o objetivo é declarar que alguma coisa – ou comportamento – simplesmente ficou velha.

Quando o assunto é um corte de cabelo ou um carro, pode ser divertido, mas no momento em que o que está em jogo é a sua vida ou a da pessoa ao seu lado, o seu apego ao obsoleto pode custar muito mais que dinheiro.

A tecnologia no uso da força avança em progressão geométrica. A cada dia surgem novos objetos, acessórios e, principalmente, técnicas. Boa parte delas, é claro, são apenas produtos de marketing, sem eficácia real, senão para os vendedores. Uma pequena porção, contudo, é consubstanciada pela concretização de anos de aprendizado e o estado da arte na ciência pertinente.

No seu treino, pode ser interessante, ocasionalmente, impor uma dificuldade decorrente da obsolescência do seu equipamento.  Miras de aço preto, por exemplo.

No combate, contudo, o que se quer é usar todos os meios disponíveis pela tecnologia para auferir o máximo de vantagem. Não economize na melhor mira eletrônica do mercado. O que está em jogo é  sua incolumidade.

O mesmo vale para o treinamento. A Segunda Guerra Mundial foi lutada com basicamente nenhuma semelhança de técnicas, táticas e equipamentos com o que se faz hoje. Provavelmente qualquer Exército dos anos 40 não duraria 10 minutos contra um Exército moderno.

Deixe o seu ego fora do combate. Ele não vai salvar a sua vida. A tecnologia, sim.

Disciplina de luz

Lucas Silveira

Instrutor-chefe

Introdução

Disciplina de luz significa utilizar os recursos disponíveis de iluminação – artificial própria, artificial de terceiros e natural – de maneira ótima a fim de obter vantagem tática no combate.

É razoável supor que se você vai usar sua arma de fogo em combate, pode ser que isso aconteça em condições de luminosidade ruim, que podem ser decorrentes do horário avançado do dia ou do efeito de  penumbra causado pela diferença de iluminação em ambientes externos e internos.

penumbra

Significado de Penumbra

substantivo femininoMeia-luz; ponto que se encontra entre a luz e a sombra; ponto de transferência entre a luz e a sombra; mudança gradativa da luz para a sombra.[Figurado] Ausência de importância; que não é de conhecimento público: o artista está na penumbra da fama.Etimologia (origem da palavra penumbra). Do latim paene + umbra.ae.

A inteligência nas práticas relacionadas ao uso eficiente da luz pode dar vantagem a quem faz o stalking ou a quem avança em território novo.

A visão

Para entender como se comportar em luminosidades diversas é preciso ter uma noção elementar de como funciona o olho humano,

Sem a pretensão de formar uma turma de oftalmos com este texto, existem estruturas  especialmente relevantes nos olhos quando o assunto é tiro e combate.

Temos a córnea, que em conjunto com o cristalino, funcionam como lente, a íris, que ajusta a abertura da pupila, permitindo maior  ou menor entrada de luz, e a retina, que transforma as ondas de luz em informação visual.

A retina, parte mais importante do olho para os efeitos deste texto, tem dois tipos de células fotossensíveis: os cones e os bastonetes.

São cerca de 6 milhões de cones e 120 milhões de bastonetes no fundo do seu olho. Os primeiros ocupam a parte central da retina e são responsáveis pela visão diurna (fotópica) e diferenciação entre as cores, a partir de azuis, verdes e vermelhos (RGB, você já deve ter ouvido falar disso no seu photoshop, monitor, etc). Já os bastonetes ocupam a periferia da retina e, adivinhem só? São responsáveis pela visão noturna (escotópica).

Os bastonetes não tem diferenciação cromática – você não enxerga cores no escuro, têm uma substância chamada rodopsina que se decompõe quando exposta a luz e leva de 15 a 20 minutos para ser refeita. Por isso, a transição da visão fotópica para a escotópica pode pregar peças nos operadores (visão mésopica).

Com baixa luminosidade, a iris permite a abertura da pupila, o que leva a maior incidência de luz – proporcionalmente – sobre a retina, o que gera a diminuição da profundidade de campo. Assim como uma objetiva de uma câmera profissional, com abertura f/2.5, o objeto da fotografia (ou da visão) fica focado, mas toda a periferia fica indistinguível.

Como você acha que isso afeta a sua capacidade combativa?

Iluminação artificial própria

Para começar, é importante que o operador tenha no mínimo uma lanterna – preferencialmente mais – disponível a todo o momento. Lanternas em casa, ou na mochila dentro do carro, não apenas peso morto.

As lanternas devem ser suficientemente compactas para serem portadas diuturnamente, robustas para suportarem impactos, discretas para não refletirem a – ainda que escassa – luz ambiente e suficientemente potentes para impedir o acesso visual àquilo que está atrás do feixe de luz.

Uma alternativa óbvia são as lanternas dedicadas que vinculam o porte de uma arma – longa ou curta – ao porte da lanterna. Em contrapartida, lanternas presas à armas deve ter sistema de desconexão rápido, de outra forma, o operador pode se ver varrendo – com o cano da arma – os próprios colegas ou membros para iluminar algo.

Vestimenta e acessórios

As vestimentas devem priorizar a descrição. Se você não faltou nas suas aulas da quarta-série, deve se lembrar de que as cores mais claras refletem mais luz, enquanto as cores mais escuras, absorvem mais.

Quando uma luz branca incide sobre um objeto verde, o objeto absorve todas as cores, exceto a verde, que é refletida, chegando até os seus cones, na sua retina, que processam a informação de que aquele objeto é verde.

Quando a luz branca incide sobre um objeto branco, todas as cores são refletidas, chegando simultaneamente na sua retina, que processa a informação do seu somatório como um objeto branco.

Quando a luz branca incide sobre um objeto preto, nenhuma cor é refletida.

É fácil inferir, portanto, que cores sóbrias (preto e tons de cinza) devem ter prioridade sobre cores alegres (branco, amarelo, etc).

É preciso ter atenção também quanto a fontes de luz própria normalmente ignorada – celulares, mesmo dentro dos bolsos, iluminam o suficiente para denunciar sua posição no escuro. Relógios têm botões de luz que podem ser acionados involuntariamente e o seu vidro também reflete ondas de luz indesejadas.

Penumbra

O senso comum imagina que a disciplina de luz ou o combate em baixa luminosidade aconteça apenas à noite. Em horários de sol a pino, contudo, formam-se sombras duras onde o operador cauteloso desejará estar para minimizar a denuncia da sua posição.

As pupilas comprimidas do observador ao sol em conjunto com a rodopsina quebrada, não permitem que os bastonetes recebam a informação de uma ameaça à sombra, por exemplo.

De forma semelhante, ambientes fechados desde edificações até matas podem proporcionar pouca luz, mesmo durante o dia. A transição dos ambientes de muita para pouca iluminação é o ponto de ouro do combate em baixa luminosidade.

Sombras

Mesmo à noite, corpos formam sombras, não raramente mais duras (bem definidas) ou compridas que e em ambientes iluminados.

Imagine as sombras de pés passando pelo vão da porta, ou a bela silhueta de um atirador incauto escondido atrás de um abrigo.

Além disso, sombras são aliadas a quem pretende se passar despercebido. Mantenha-se no local mais escuro.

Iluminação natural

Em noites de lua cheia a visibilidade é muito boa em ambientes abertos. Com exceção de noites de lua minguante ou absolutamente nubladas, existe luz suficiente para criar silhuetas, sombras e oferecer ao operador oportunidades de identificar ameaças ou se livrar discretamente delas.

Além das fontes primárias de iluminação natural – sol, lua, ocasionalmente fogo – que podem ser exploradas de acordo com o comentado no item “penumbra”, existem ainda as fontes secundárias de luz: o reflexo numa parede branca, oriundo de um lago ou da areia da praia ou deserto, por exemplo.

Iluminação de terceiros

A iluminação pode ser deliberada, ocasional ou não intencional.  Essa luz pode vir a partir de uma lanterna de um inimigo que te procura no escuro, pode ser de um carro desavisado virando a esquina ou, por descuido, de uma lanterna no bolso que acendeu sem querer, quando ele flexionou o quadril ou até a ponta de um cigarro aceso ou a palma da mão branca refletindo a lua – acontece muito com atiradores de fuzis com ação mauser.

Em regra, a iluminação de terceiros fornece uma série de informações importantes para o combate: a provável localização de pelo menos um dos inimigos, o tipo de iluminação utilizado e, por consequência, o seu nível técnico provável, o nível de alerta, a quantidade de inimigos – se a iluminação deliberada for feira de forma errada, etc.

Tecnologias

Em 2020 as lanternas cada vez se tornam coisa do passado. Câmeras de brinquedo conseguem reproduzir imagens com qualidade de ambientes com pouquíssima luz.

Os equipamentos de visão noturna, ativos e passivos, são disponíveis desde celulares, veículos, brinquedos de crianças até NVGs de alto padrão de dezenas de milhares de dólares.

Compensa pensar em usar algo assim se a chance de você combater em condições ruins de luminosidade for razoável.

Treinamento

A Academia Brasileira de Armas oferece treinamentos para grupos privados, abertos ou institucionais de combate em baixa luminosidade. Clique aqui e acesse nosso conograma. 

Uso de abrigo e cobertura

Uma habilidade relevante no tiro de combate consiste em encontrar, no ambiente, na iminência do confronto, estruturas naturais ou artificiais que possam servir para esconder (cobertura) ou proteger (abrigo) o combatente a fim de, com o uso ótimo da biomecânica, associada à geometria e à tática, expor o mínimo necessário de seu corpo aos riscos inerentes à ação.

Observe que o uso desses obstáculos aos projéteis precede o confronto, fazendo parte da mentalidade do combate: nos ensinamentos do Kombato, ao acessar um ambiente novo, deve-se seguir o mnemônico LÁPIS – Localizar Armas Próprias, Impróprias e Saídas.

Cerca de 70% dos ataques a policiais foram feitos, de acordo com condenados entrevistados nos Estados Unidos, pela falha ao detectar as ameaças previamente. A ocasião faz o ladrão.

No que diz respeito à última letra da sigla, “S”, é preciso que o cidadão armado procure identificar desde cedo as melhores rotas e posições para o combate em um ambiente novo, assim que ele é acessado.

Toda movimentação – que deve ser tão constante quanto possível – deve ser feita após responder às seguintes perguntas elementares:

  • Para onde vou?
  • Quando vou?
  • Como vou?
  • Por onde vou?

Já atrás da cobertura/abrigo é preciso minimizar, de fato, a sua exposição. Nesse momento noções de geometria de combate e Combat Mobility System  ajudam a se tornar um alvo difícil e a visualizar o inimigo antes de ser visualizado.

Por último, mas não com a intenção de esgotar o tema, é preciso ter boas noções sobre balística terminal. Quais são os materiais que efetivamente podem parar disparos de baixa e de alta energia? Objetos que podem ser abrigos contra pistolas, consubstanciam apenas coberturas contra fuzis, e vice-versa.

Considere ainda o efeito do ricochete, da ação da sua equipe e dos transeuntes, evitando o fogo cruzado inadvertido e o efeito de cone de proteção atrás dos objetos, sobre o qual, poderemos abordar em outro texto.

 

 

Qual é a diferença entre 5,56 e .223?

A popularização dos fuzis no calibre 5,56NATO no Brasil reacendeu um debate antigo no meio dos atiradores: Qual a diferença entre as munições 5,56 e .223? Posso usar .223 na minha arma 5,56? E o contrário, posso?

As medidas dos cartuchos são exatamente idênticas, o que leva a conclusão de que as munições cabem em armas de ambos os calibres indistintamente. Todavia, as normas seguidas para o 5,56 e o .223 são diferentes: o primeiro, US MIL ou NATO, o segundo, SAAMI.

…de acordo com as especificações de sensibilidade de espoleta de referidas normas, para o calibre .223Rem é comumente utilizada espoleta 5½, enquanto que para munições calibre 5,56x45mm se utiliza espoletas 7½.
No entanto, desde 2013, com o lançamento do Fuzil IMBEL IA2, todas os tipos de munições produzidas pela CBC no calibre .223Rem para comercialização no mercado brasileiro, são carregadas utilizando espoleta 7½ padrão militar, ou seja, a mesma espoleta utilizada no carregamento das munições calibre 5,56x45mm.

(Explica a Companhia Brasileira de Cartuchos)

Ainda, de acordo com o fabricante, segue transcrição ipsis litteris:

Nota 1: Comparando a posição do início do raiamento em provetes / canos entre as normas SAAMI e Militar, temos:

Assim, o início do raiamento em provetes SAAMI é 1,952mm mais próximo da câmara, com isso o projétil irá “engrazar” mais rapidamente e por consequência apresentará um valor de pressão maior do que em provetes militares.

Nota 2: O método de medição da pressão conforme a SAAMI difere do método de normas militares, as quais posicionam o transdutor piezoeléctrico (sensores de pressão) na boca do estojo da munição, já a norma SAAMI especifica o posicionamento do transdutor na câmara. Uma mesma munição
testada nestes dois métodos apresentará valores de pressão maiores na câmara do que na boca do estojo.

Portanto, pode-se dizer que é possível, com segurança, usar .223 em armas 5,56, mas o recíproco não é verdadeiro, consideradas as munições nacionais, feitas pela CBC.

Todavia, assim como é possível disparar 38SPL em armas .357, não é recomendado usar cartuchos diferentes daqueles para os quais a arma foi desenvolvida.

Algo parecido acontece entre as munições 7,62 e .308. Mas isso fica para o próximo texto…

Nós treinamos para matar – Introdução à mentalidade de combate

Você achou o título muito forte? Então você está treinando errado.

A literatura sobre a realidade do combate armado é extensa em exemplos que ensinam que tão importante quanto estar tecnicamente apto a matar, é estar psicologicamente apto a fazê-lo.

Com base nisso, MURRAY, 2004, apresenta o Task Triangle: um modelo que incorpora os três principais aspectos que afetam as resposta do operador e a sua escolha durante um conflito: O nível de habilidade, os fatores de estresse e os fatores de ativação da capacidade de matar, popularizados por Dave Grossman no seu livro “On Killing“, traduzido para o Português como “MATAR”.

Você pode achar que tem essa capacidade dentro de si próprio, mas vale lembrar que filogeneticamente é contraproducente que qualquer ser vivo seja hábil em matar seus pares – de outa forma, a espécie não daria sequência ao seu código genético, pela escassez de herdeiros.

Assim, o primeiro passo é compreender que não é natural para um humano matar outro ser humano. Vejamos alguns relatos históricos relevantes:

  1. Batalha de Belgrado, 1717 – Dois batalhões imperiais mantiveram seus fuzis sem disparar nenhum tiro até que os turcos estivessem a cerca de 30 passos. Apenas 32 turcos foram alvejados.
  2. A batalha sem sangue de Vicksburg, 1863 – Duas companhias dispararam sucessivamente uma contra a outra, a uma distância inferior a 15 jardas. Ninguém foi alvejado.
  3. Ataque Zulu em Rorkes Drift, 1897 – Os Zulo=us superaram em número um pequeno grupo de soldados britânicos, disparando sequências sucessivas quase à queima roupa. A taxa de acertos foi de 1:13.
  4. Rosebud Creek, 1876 – Os soldados do General Crook dispararam 25.000 vezes contra os índios, acertando apenas 99 vezes.

E histórias como essas repetem-se incessantemente ao passar dos anos.

Mesmo no Brasil, o país mais violento do mundo, é preciso ensinar as pessoas a encararem a realidade:

Se você treina com armas – com exceção, claro, do tiro esportivo, recreacional, etc –  você está treinando para MATAR. Não use outro termo. Palavras têm significado.

Você não está treinando para repelir injusta agressão. Você não está treinando para cumprir a lei. Você não está treinando para proteger a vida. A arma de fogo é uma arma LETAL.

Parte importante da introdução à mentalidade de combate é, portanto, preparar o seu cérebro para deliberadamente matar alguém que se parece com você.

As estratégias para isso são várias, muitas delas feitas inconscientemente ao longo dos anos. A desumanização do inimigo é um delas. Já percebeu como sempre existiram apelidos para os inimigos nas guerras?

Os americanos chamavam os nazistas de Kraut (chucrute), depois os Vietcongs de Charlies. No Brasil, o criminoso é vagabundo, mala, peba, depende da região onde você está. Quando o seu inimigo é o chucrute e não o Fritz, ou quando é o mala e não o João Pedro, o processo fica mais fácil.

O treinamento precisa ser ajustado. Pessoas de todo o mundo são ensinadas a procurar meios proporcionais de reação, em atividades cheias de eufemismos para não dizer que o objetivo em atirar em alguém é matar. E se você acha que o objetivo é parar, você está fazendo isso errado.

Decorrente da premissa “parar”, “cessar” e não “matar”, aparecem absurdos nos estandes de tiro, que vão desde “stopping power” até “double taps”. Doutrinas do século passado.

Em quantos editais de concurso para a carreira policial ou militar você viu que a descrição do cargo envolvia ocasionalmente a necessidade de MATAR?

Não é à toa que as polícias cada vez mais são formadas por concurseiros que mais parecem um cover de Backstreet Boys e não por policiais. Seja um cidadão armado defendendo a sua liberdade, um militar ou um policial, não importa. Preparar sua mente significa afiar o machado antes de cortar uma árvore.

Introdução à mentalidade do combate, 1.01: Não enfeite o pavão. Atire para matar. Treine para ser eficaz e eficiente nisso.

Lucas Silveira

Instrutor-chefe da Academia Brasileira de Armas

Grey Man Directives 1.01

Você pode não ter consciência, mas instintivamente já tentou passar despercebido em alguma situação. Se você não treinou essas habilidades antes é provável que tenha falhado miseravelmente.

Grey Man Directives (GMD) é o nome dado ao conjunto de práticas que objetiva misturar um indivíduo de forma indistinguível de determinado meio, tornando-o menos chamativo entre a multidão.

As GMDs são bastante estudadas e utilizadas por responsáveis pelo Advanced Work em missões privadas, de espionagem ou oficiais, mas também podem ser empregadas por quem deseja aumentar seu nível de segurança no ambiente urbano ou fazer o uso ótimo do seu porte velado.

Existem diretrizes básicas que norteiam as GMDs em todos os cenários, mas este texto é voltado ao cidadão brasileiro em ambiente urbano. Por óbvio, se tratássemos de um cidadão na zona rural da Índia, as práticas deveriam ser adaptadas, consideradas as extensas diferenças nos cenários.

  1. Vestuário

A forma mais óbvia de comunicação não verbal é o vestuário. Aprenda: sim, aparências importam muito.

Se você se apresenta pra mim com uma camiseta do Bob Marley, eu vou deduzir que você é usuário de maconha, queira você ou não. Se você se apresenta pra mim com uma polo da Gucci eu vou deduzir que você é rico. Se você se apresenta com uma camisa com uma arma desenhada, vou concluir que você está armado.

Aproveitando o ensejo. Recuse aqueles cartões pretos que todo mundo sabe que estão cheios de crédito.

É claro que todas essas informações podem estar erradas. Mas nesse momento a luz vermelha já se acendeu no meu cérebro e de agora em diante você vai precisar provar – direta ou indiretamente – que as minhas premissas estão erradas.

Assim, o básico do vestuário nos padrões GMD são tecidos lisos, sem marcas nem estampas. Quanto mais comum, melhor. Uma camiseta inteira branca ou preta. Uma calça jeans sem nenhum detalhe aparente, por exemplo.

É claro que o mesmo não vale quando o cenário no qual você está inserido não comporta este tipo de roupa. Imagine, o sujeito super discreto, de camiseta e calça jeans, na praia. A tentativa de não chamar atenção fracassou.

Não se esqueça do tamanho. Camisetas mais folgadas escondem sua forma física e também suas armas.

Os acessórios também precisam ser usados com parcimônia: relógios de impacto (G-Shock, Suunto) passam mensagens, assim como Rolex ou Omegas.

Correntes de ouro informam, assim como dog tags. Botas de caminhada ou táticas deixam claras as suas atividades. Preciso falar sobre aliança de casamento?

Use um relógio básico, um tênis ou sapato comum. Se você não tiver medo do cônjuge, pode tirar ocasionalmente a sua aliança. Quanto menos informação, melhor.

Óculos de sol. Use sempre que puder, pois é um acessório que ajuda a esconder suas expressões e características (distâncias entre olhos, por exemplo). Lembre-se, contudo, que os modelos de óculos também informam muito. Se você vê alguém que usa um ESS, a que conclusão você chega? E se for um óculos da Harley-Davidson?

Cortes de cabelo, barba, unhas, mãos Apertos de mãos são formas muito eficientes de comunicação. Normalmente apenas são avaliados pela pressão, mas com o aperto de mão você consegue observar a comunicação corporal, a texura – quem tem mão lisa não faz trabalho pesado, e assim por diante.

2 Veículos

Não precisa ter muita experiência para saber que um sujeito com um Maserati deve estar confortável financeiramente.

Se possível, escolha o carro mais vendido na época. Aqui vai uma lista atualizada.

Veja os carros mais vendidos em 2019
  • Chevrolet Onix – 241.214.

  • Ford Ka – 104.331.

  • Hyundai HB20 – 101.590.

  • Renault Kwid – 85.117.

  • Volkswagen Gol – 81.285.

  • Fiat Argo – 79.001.

  • Fiat Strada – 76.223.

  • Chevrolet Prisma – 73.721.

Evite adesivos, placas óbvias, modificações.  Se você comprar um Ônix e rebaixar a suspensão, eu defendo a pena de morte pra você.

Ande na velocidade do trânsito – e não na velocidade das placas. Se a placa coloca o limite a 40 km/h e todo andam a 60 km/h, o Grey Man deve andar a 60.

Tenha os documentos em dia.

3. Comunicação verbal

Fale da forma que a comunidade local fala. Aprenda as gírias e o sotaque. Não use vernáculo onde o colóquio é a regra e vice-versa.

4. Rede sociais.

Não tenha.

Se tiver, não tenha fotos.

Se tiver fotos, que não sejam suas.

Se tiver fotos suas, que estejam de longe, usando acessórios (óculos, bonés, barba, etc)

Não tenha fotos da sua família.

A escolha é sua

5. Comportamento

Este é o tópico mais complexo dessa sequência.  Quando se faz advanced work para operações de PMC ou CPO, por exemplo, evita-se olhar para as câmeras, fazer anotações em público, e assim por diante.

Se você quer aparentar ser normal, caia deliberadamente em todas as distrações, sem se distrair de fato.. Vire a cabeça para a mulher passando, mas mantenha o foco no sujeito do outro lado da rua.

Seja educado e simples. Não tente se esconder. Nada chama mais atenção do que alguém se esforçando para se esconder.

Cumprimente quem for necessário, mantenha sua postura normal.

6. Disposições finais

Tem mais? Claro, tem muito mais, mas acreditamos que a esta altura você já tenha entendido o mecanismo das GMD.

Esse comportamento é treinado em vários dos cursos da Academia Brasileira de Armas de forma mais extensa. Venha participar.