Disciplina de luz

Lucas Silveira

Instrutor-chefe

Introdução

Disciplina de luz significa utilizar os recursos disponíveis de iluminação – artificial própria, artificial de terceiros e natural – de maneira ótima a fim de obter vantagem tática no combate.

É razoável supor que se você vai usar sua arma de fogo em combate, pode ser que isso aconteça em condições de luminosidade ruim, que podem ser decorrentes do horário avançado do dia ou do efeito de  penumbra causado pela diferença de iluminação em ambientes externos e internos.

penumbra

Significado de Penumbra

substantivo femininoMeia-luz; ponto que se encontra entre a luz e a sombra; ponto de transferência entre a luz e a sombra; mudança gradativa da luz para a sombra.[Figurado] Ausência de importância; que não é de conhecimento público: o artista está na penumbra da fama.Etimologia (origem da palavra penumbra). Do latim paene + umbra.ae.

A inteligência nas práticas relacionadas ao uso eficiente da luz pode dar vantagem a quem faz o stalking ou a quem avança em território novo.

A visão

Para entender como se comportar em luminosidades diversas é preciso ter uma noção elementar de como funciona o olho humano,

Sem a pretensão de formar uma turma de oftalmos com este texto, existem estruturas  especialmente relevantes nos olhos quando o assunto é tiro e combate.

Temos a córnea, que em conjunto com o cristalino, funcionam como lente, a íris, que ajusta a abertura da pupila, permitindo maior  ou menor entrada de luz, e a retina, que transforma as ondas de luz em informação visual.

A retina, parte mais importante do olho para os efeitos deste texto, tem dois tipos de células fotossensíveis: os cones e os bastonetes.

São cerca de 6 milhões de cones e 120 milhões de bastonetes no fundo do seu olho. Os primeiros ocupam a parte central da retina e são responsáveis pela visão diurna (fotópica) e diferenciação entre as cores, a partir de azuis, verdes e vermelhos (RGB, você já deve ter ouvido falar disso no seu photoshop, monitor, etc). Já os bastonetes ocupam a periferia da retina e, adivinhem só? São responsáveis pela visão noturna (escotópica).

Os bastonetes não tem diferenciação cromática – você não enxerga cores no escuro, têm uma substância chamada rodopsina que se decompõe quando exposta a luz e leva de 15 a 20 minutos para ser refeita. Por isso, a transição da visão fotópica para a escotópica pode pregar peças nos operadores (visão mésopica).

Com baixa luminosidade, a iris permite a abertura da pupila, o que leva a maior incidência de luz – proporcionalmente – sobre a retina, o que gera a diminuição da profundidade de campo. Assim como uma objetiva de uma câmera profissional, com abertura f/2.5, o objeto da fotografia (ou da visão) fica focado, mas toda a periferia fica indistinguível.

Como você acha que isso afeta a sua capacidade combativa?

Iluminação artificial própria

Para começar, é importante que o operador tenha no mínimo uma lanterna – preferencialmente mais – disponível a todo o momento. Lanternas em casa, ou na mochila dentro do carro, não apenas peso morto.

As lanternas devem ser suficientemente compactas para serem portadas diuturnamente, robustas para suportarem impactos, discretas para não refletirem a – ainda que escassa – luz ambiente e suficientemente potentes para impedir o acesso visual àquilo que está atrás do feixe de luz.

Uma alternativa óbvia são as lanternas dedicadas que vinculam o porte de uma arma – longa ou curta – ao porte da lanterna. Em contrapartida, lanternas presas à armas deve ter sistema de desconexão rápido, de outra forma, o operador pode se ver varrendo – com o cano da arma – os próprios colegas ou membros para iluminar algo.

Vestimenta e acessórios

As vestimentas devem priorizar a descrição. Se você não faltou nas suas aulas da quarta-série, deve se lembrar de que as cores mais claras refletem mais luz, enquanto as cores mais escuras, absorvem mais.

Quando uma luz branca incide sobre um objeto verde, o objeto absorve todas as cores, exceto a verde, que é refletida, chegando até os seus cones, na sua retina, que processam a informação de que aquele objeto é verde.

Quando a luz branca incide sobre um objeto branco, todas as cores são refletidas, chegando simultaneamente na sua retina, que processa a informação do seu somatório como um objeto branco.

Quando a luz branca incide sobre um objeto preto, nenhuma cor é refletida.

É fácil inferir, portanto, que cores sóbrias (preto e tons de cinza) devem ter prioridade sobre cores alegres (branco, amarelo, etc).

É preciso ter atenção também quanto a fontes de luz própria normalmente ignorada – celulares, mesmo dentro dos bolsos, iluminam o suficiente para denunciar sua posição no escuro. Relógios têm botões de luz que podem ser acionados involuntariamente e o seu vidro também reflete ondas de luz indesejadas.

Penumbra

O senso comum imagina que a disciplina de luz ou o combate em baixa luminosidade aconteça apenas à noite. Em horários de sol a pino, contudo, formam-se sombras duras onde o operador cauteloso desejará estar para minimizar a denuncia da sua posição.

As pupilas comprimidas do observador ao sol em conjunto com a rodopsina quebrada, não permitem que os bastonetes recebam a informação de uma ameaça à sombra, por exemplo.

De forma semelhante, ambientes fechados desde edificações até matas podem proporcionar pouca luz, mesmo durante o dia. A transição dos ambientes de muita para pouca iluminação é o ponto de ouro do combate em baixa luminosidade.

Sombras

Mesmo à noite, corpos formam sombras, não raramente mais duras (bem definidas) ou compridas que e em ambientes iluminados.

Imagine as sombras de pés passando pelo vão da porta, ou a bela silhueta de um atirador incauto escondido atrás de um abrigo.

Além disso, sombras são aliadas a quem pretende se passar despercebido. Mantenha-se no local mais escuro.

Iluminação natural

Em noites de lua cheia a visibilidade é muito boa em ambientes abertos. Com exceção de noites de lua minguante ou absolutamente nubladas, existe luz suficiente para criar silhuetas, sombras e oferecer ao operador oportunidades de identificar ameaças ou se livrar discretamente delas.

Além das fontes primárias de iluminação natural – sol, lua, ocasionalmente fogo – que podem ser exploradas de acordo com o comentado no item “penumbra”, existem ainda as fontes secundárias de luz: o reflexo numa parede branca, oriundo de um lago ou da areia da praia ou deserto, por exemplo.

Iluminação de terceiros

A iluminação pode ser deliberada, ocasional ou não intencional.  Essa luz pode vir a partir de uma lanterna de um inimigo que te procura no escuro, pode ser de um carro desavisado virando a esquina ou, por descuido, de uma lanterna no bolso que acendeu sem querer, quando ele flexionou o quadril ou até a ponta de um cigarro aceso ou a palma da mão branca refletindo a lua – acontece muito com atiradores de fuzis com ação mauser.

Em regra, a iluminação de terceiros fornece uma série de informações importantes para o combate: a provável localização de pelo menos um dos inimigos, o tipo de iluminação utilizado e, por consequência, o seu nível técnico provável, o nível de alerta, a quantidade de inimigos – se a iluminação deliberada for feira de forma errada, etc.

Tecnologias

Em 2020 as lanternas cada vez se tornam coisa do passado. Câmeras de brinquedo conseguem reproduzir imagens com qualidade de ambientes com pouquíssima luz.

Os equipamentos de visão noturna, ativos e passivos, são disponíveis desde celulares, veículos, brinquedos de crianças até NVGs de alto padrão de dezenas de milhares de dólares.

Compensa pensar em usar algo assim se a chance de você combater em condições ruins de luminosidade for razoável.

Treinamento

A Academia Brasileira de Armas oferece treinamentos para grupos privados, abertos ou institucionais de combate em baixa luminosidade. Clique aqui e acesse nosso conograma.