Balística Terminal – Um pequeno apanhado sobre o assunto

Raphael Pontes é instrutor de tiro, membro fundador do grupo de estudos Papyrus e acadêmico de Direito
  1. Introdução

Atualmente, no mundo do tiro, a balística terminal volta a ser matéria de recorrência a evidência, assunto esse, abordado entre profissionais das forças policiais, atiradores, instrutores e técnicos da área.

Diga-se de passagem, tal assunto é de fundamental importância, visto que, no Brasil em específico, durante longos anos, legados são proferidos como verdades absolutas, o que acabou criando demasiada desinformação, criando falsas seguranças aos operadores de calibres e munições obsoletas, bem como, criando jurisprudência e entendimento técnico arcaico, quanto à balística terminal e seus efeitos deletérios.

Portanto, o texto escrito por mim, de maneira absolutamente humilde, depois de longos estudos em cima da doutrina do ilustre Vincent Dimaio (Gunshot Wounds – Practical Aspects os Firearms, Balistics na Forensic Techniques), bem como o extraordinário estudioso do assunto Delegado da Polícia Civil do Estado de Santa Catarina, João da Cunha Neto (Balística para Profissionais do Direito), nos trazem conceitos modernos da balística terminal ao nosso mundo do tiro.

2. Balística Terminal aplicada

Quando abordamos o tema de incapacitação por arma de fogo, o cerne da questão é a teoria da incapacitação. Não obstante é importante saber que a principal relação é a do projétil com o meio em que ele atinge, portanto, a teoria da velocidade da incapacitação.

Neste ínterim, é sabido que para se incapacitar um corpo por meio de um disparo, é necessária a entrada de diversos fatos em discussão, dentre eles, variáveis psicológicas, fisiológicas, letalidades de calibres e armas em questão.

De acordo com SWEENEY, existem duas formas de incapacitação imediata, seja ela por disparo no famigerado “T da morte”, ou na linguagem técnica, sistema nervoso central onde se denomina como tronco encefálico, ou a coluna cervical alta do agressor.

Não obstante, há a possibilidade de a cadência e o agrupamento dos disparos em locais altamente vascularizados, causem um sangramento massivo que faça com que a pressão sanguínea caia de maneira abrupta que o choque hipovolêmico onere a incapacitação do cidadão infrator.

Talvez aí, seja o cerne da questão em discussão, falando de combates urbanos, principalmente para os cidadãos civis que portam armas curtas, ou seja, de baixa energia, visto que, em um confronto um operador treinado possa desperdiçar até 87% dos seus disparos, é absolutamente dificultoso que se acerte um único disparo na cabeça para que assim se cesse a agressão imediatamente.

Não é difícil, portanto, entender que disparos em locais diferentes dos citados acima, são uma verdadeira “loteria”, pois mesmo que atingido em grandes vasos, a pessoa que tenta contra sua vida, tem tempo suficiente para terminar o seu serviço, falando em termos técnicos, até que o sangramento massivo diminua o transporte de oxigênio ao cérebro, há tempo suficiente do agressor descarregar um carregador de 15 munições contra você.

3. Efeitos Psicológicos/Deletérios do Combate

Dando sequência ao assunto abordado, os efeitos psicológicos do combate, trazem algumas consequências demasiadamente indesejáveis ao combatente, especificamente a carga abrupta de cortisol, adrenalina e anti-trombina liberada no sangue, oneram principalmente a famosa “visão de túnel, perda da coordenação motora fina, audição e questões de caráter sensoriais. Daí, fica clara a premissa de que em combate, 87% dos disparos são desperdiçados.

As consequências dos disparos sofridos em um corpo humano, dependerão principalmente da localização do disparo, efeitos de drogas que o sujeito pode ter consumido, sobrevivência, e mentalidade de combate.

Especificamente, na mentalidade de combate, existem formas de treinamentos focadas especificamente nessa relação, em treinamento baseados em cenários (Murray), que preparam o operador a reagir de maneira mais tênue aos efeitos deletérios do combate, bem como o treinamento correto, que criam memória muscular, fator este preponderante em combate, mas isso, eu acredito que seja tema para um outro texto, visto sua complexidade e extensão a abordagem.

4. Letalidade (cavidade temporária x cavidade permanente)

É importante frisar que, os projéteis não funcionam como lâminas, que cortam tecidos, mas sim que possam vir a rompê-los pela sua energia ou seja a Cavidade Permanente. E, não obstante, mudam sua trajetória, podendo perder sua massa e consequentemente sua velocidade, quando entram em contato com meios duros, sejam eles ossos, ou portas de veículos e paredes, por exemplo.

No caso do dano secundário, causado pela cavidade temporária, pela velocidade do projétil ao “entrar” no corpo humano.

Portanto, quanto maior o diâmetro do projétil, maior será o dano de tecido no corpo, que, gerará a incapacitação causada pelo sangramento massivo. No caso dos projéteis expansivos, maior será a dissipação de energia dentro do corpo, teoricamente, aumentando a extensão dos danos. Em contrapartida, menor será a sua penetração, visto que esses projéteis se expandem em meios hidro-sólidos, aumentando a área de tecidos atingidos.

Por curiosidade, o FBI fala em penetração de 12 a 18 polegadas como uma resultante satisfatória, coisa que pelo menos em munições expansivas nacionais, por seus resultados erráticos, não trazem esse feedback, mas sim, resultados insatisfatórios, como relatos de munições expansivas que se deformaram e perderam completamente a sua energia ao atingir uma Jaqueta de frio.

Por exemplo, 85% dos tiros no tórax, atingem algum osso, fronte ao resultado ruim das munições expansivas nacionais, é sabido que esse projétil dificilmente irá atingir grandes vasos ou órgãos demasiadamente vascularizados, daí podemos considerar que não são os mais indicados para defesa, e principalmente desmistificando o famigerado “mito do stoping power”.

Em munições de alta energia, como por exemplo o 5,56x45mm ou o 7,62x51mm, dada sua alta energia, temos o fenômeno do dano secundário, uma vez que ao momento que o projétil encontra a estrutura corpórea, sua demasiada energia, além de romper completamente tecidos, quebrar ossos e se fragmentar, aumentando a área da lesão, causa lesões secundárias exatamente por sua enorme energia, podendo até levar o infrator ao óbito, por um dano cerebral, antes que o sangramento da área atingida o mate.

5. Qual arma/calibre escolher

O que se procura hoje, é a balística mais equilibrada, podendo assim dizer, especificamente, temos em evidência o calibre 9x19mm, que atualmente é empregado pela maioria das forças policias e militares ao redor do mundo.

Exatamente por ser munido de uma balística muito uniforme (velocidade e transfixação) utilizando munições ogivais, onde o núcleo do projétil, normalmente feito de chumbo é englobado por uma camisa de cobre-níquel, tornando-a mais “dura”, e, portanto, onerando uma menor perda de massa, quando encontram barreiras físicas ou corpóreas (ossos).

Bem como, por sua maior capacidade de munição, usando como exemplo plataformas de pistolas como a Glock G19, que tem capacidade de 15 tiros mais 01, ou até mais, dependendo do carregador utilizado, e seu baixo recuo, proporcionando melhor e mais rápido ganho de alça e massa de mira, permitindo diversos disparos em regiões letais, facilitando o operador em confronto diante dos efeitos deletérios do stress em combate.

Contudo, atualmente, calibres como o .45ACP que tem uma balística “fantástica”, acabam sendo deixados de lado, exatamente pelo nível de treinamento exigido para que seja operado com maestria, pela sua baixa capacidade de munição na sua plataforma, e pelo seu alto recuo proporcionado pelos disparos, impedindo uma boa recuperação de alça e massa e consequentemente impedindo, também, uma boa cadência de tiro.

As munições expansivas nacionais, por terem a engenharia que proporciona fragmentação e expansão, geram temores e resultados erráticos, visto que pode se “desfazer” ao atingir os meios corpóreos, não proporcionando penetração suficiente para atingir grandes órgãos e causar sangramento massivo, consequentemente perdendo massa e diretamente velocidade e energia.

Calibres de armas longas, como o já citado 5,56x45mm são munidos de alto poder de incapacitação, seja pelo seu dano primário, mas também pelo dano secundário que causam, exatamente pela alta energia que proporciona

6. Conclusões:

Dentro do exposto, de maneira absolutamente humilde, de um “fanático pelos estudos do combate” e munido de excelentes e modernas obras, podemos concluir que:

  • O que se quer é – 12 polegadas (30 cm) de penetração, regra de ouro da balística do FBI;
  • Policiais acertam 17% dos disparos em confronto. (Qual é então a preocupação em excesso de transfixação se você naturalmente erra a maioria dos disparos?);
  • Penetração – Cavidade temporária – cavidade permanente, não incluindo o cérebro e o fígado que são tecidos elásticos e, portanto, armas curtas não rompem tecidos elásticos devida sua baixa energia);
  • Nos casos de armas de baixa energia, a regra de ouro é o choque hipovolêmico (sangramento massivo) causado pela grande quantidade de disparos agrupados;
  • Possibilidade de incapacitação psicológica: Reação corporal (suprarrenais e adrenalina) ou pré-disposição para o combate;
  • A diferença é acertar – .40S&W tem 670J de energia – 9x19mm tem 620J, a diferença de energia é irrisória praticamente, só que com o 9x19mm você acerta, com o .40S&W não! E só depois de 27 anos o FBI voltou atrás dessa premissa;
  • Quem escreveu sobre “stopping power”, depois de 15 anos afirmou que o estudo não é válido. Sendo que o .40S&W é o pior dos mundos, não tem energia de um 10mm auto e não tem o resultado balístico do 9x19mm;

Se você não concorda, ou tem pontos a acrescentar, a Academia Brasileira de Armas, além de ser um centro de treinamento de uso da força, tem seu grupo de estudos (Projeto Papyrus), do qual eu faço parte e dentro dele nos reunimos e discutimos sobre diversos assuntos, principalmente o tema de “Balística Terminal”, nossos colegas com formações de diversas áreas, sejam elas técnicas ou táticas.

Treinem sempre para o pior cenário, criem a mentalidade de combate, usem a modernidade e os bons materiais em seu favor, não parem de questionar, bem como seguir os ótimos profissionais que temos no Brasil hoje, relacionado a esse assunto e tantos outros.

Estamos sempre juntos, para melhorar e agregar conhecimento.

NULLIUS IN VERBA!